quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Dor do Devorador

A dor do Devorador.

 Existem muitos céus por baixo deste céu noturno, ainda mais fortuitos e assombrosos do que dos céus diurnos. Pois nestes céus vivem as criaturas do dia e da noite, já nos iluminados apenas os brilhantes se encaram. Não sei lhe dizer ao certo quem sou, se o que fui é real, ou se o que conto tem sentido ou razão, mas apenas quero contar, revelar o que meu coração nesse momento guarda, uma mistura inócua de culpa e prazer. 
 
Minha existência é um dos mais ternos enigmas, aposto que me consideraria uma fantasia, um silvo do passado, apenas uma ideia. De certa forma sou, da forma que me escrevo e que me imagino, tanto que posso mudar em um salto. O peso de minhas memórias são tão reais quanto os desejos sórdidos em meu peito, podem parar de existir em qualquer lampejo, e logo serei outra pessoas. Mas, uma coisa é certa, este outro terá o meu mesmo alimento, o sangue que corre por seu pescoço e é desperdiçado por sua fala, o calor de suas veias que atiça minhas entranhas. Pois sou como o fogo, o eterno fogo que queima, e você criatura, é o meu alimento. Porém, se desesperar seria estupidez, pois como digo: Somos os seres do 3, o Criador, a Criatura e o Devorador.

Não posso ser tocado, a não ser por outros dos meus mesmos. Tenho em mim os desejos, tenho em mim a eterna diversão. Pois nunca me verá realmente triste, nunca me verá realmente cansado, e nunca me verá realmente farto, mas pode me ver colérico, na cólera da fome e o divertimento no terror. Lhe peço, não queira ver essa face, pois teu sangue escorrerá enquanto eu falo, e tua vida se esvairá para minha diversão, e depois que estiver em seu leito não terei arrependimentos, pois não serei mais este eu que vos fala. Serei o próprio alento do medo.

É do Devorador que vocês tem medo, e não lhes tiro o motivo. Somos a ânsia, a ganancia e o mais vivido poder. Somos a vida que leva a morte, o breu que carrega a luz individual. Temos nossas tochas acesas, mas fazemos de vocês nosso alimento. Sua vida queima em nossas veias, ironicamente é para isso que servem muito de vocês. Assim como o gado no cerco muitos vivem, até alguns de nós. Regozijo-me nessa possibilidade, hora ou outra encontro um dos meus, sofrendo e correndo como um dos seus. É tão triste, mas me vejo tão alegre, pois imagino como ele se sentirá quando perceber que é um Devorador, pois ele há de perceber, pois não somos tolos, nenhum de nós é. E nem você, que está lendo, mas será se não perceber um de nós no escuro. Mas o que poderá fazer, não é? Oferecer seu sangue de bom grado? Essa seria uma escolha divertida, mas pode experimentar correr, claro que pode. Espero que seja bem rápido, adoramos testar o quão melhores ficamos depois da última alimentação.

Acontece que muitos de nós sentem-se culpados. Sentem-se tristes e desesperados com suas condições, com seus objetivos. É fácil de entender, eu também senti. Acontece que mesmo nestes momentos, existe uma gargalhada em nosso interior, existe um prazer incompreensível na culpa e no desastre. Mas não se exalte, mortal, o fato de você ser desajustado não lhe classifica como um Devorador. Não é um dos meus o que não reconhece a bondade, aqueles que não possuem glória são resíduos, vá atrás de um terapeuta, reles estúpido. Tua vitalidade apenas envenenaria um iniciante dos meus.

Os iniciantes possuem 4 escolhas quando encontram consigo: Rejeitar quem são, dizendo a si mesmos que deve haver algum engano, ou apenas está imaginando; Adentrar no caminho e sentir culpa por estar fazendo isso com seus semelhantes, o sangue é delicioso, e o poder... ah o poder... Luminoso, mas a culpa que fica é amarga e escura; Reconhecer quem é, e devorar sem medo ou culpa, chegando a tornar-se desenfreado e... Aborrecedor; E reconhecer quem é, e porque é assim, e devorar na medida exata, no tempo exato, e nunca, nunca perder uma oportunidade fortuita, isto seria um pecado, afinal: ‘Que Devorador rejeita o prazer saudável?’ Veja bem, querido ou querida leitora: Saudável. A imortalidade não é mantida por sanduíches ou Nutella. Ou por prostitutas gratuitas, ou pagas.

Acontece, que cada um de nós passamos pelas 4 fases iniciais, alguns tentam fugir e correr, mas alguma hora surtam e devoram tudo ao redor. E isso é perigoso, até para nós. Embora saibamos punir os nossos descontrolados. 

Também podemos ‘criar’ devoradores, claro que sim, sempre é bom ter um companheiro de caça, o problema é que vocês humanos são duvidosos. Muito duvidosos. Alguns ficam fascinados com o poder, e perdem a culpa tão rápido que é de se espantar, muitos dos ‘transformados’ beiram a loucura. E esses são os que vocês caçam. Claro que sim, acham mesmo que um Devorador seria devorado? Que ingenuidade. É quase tão engraçado quanto o mito do imortal sofredor.

- Óh minha amada... Estou a tanto sozinho em minha longa vida solitária...
- E logo estará de novo, pois vivo tão pouco...
- Desejas a imortalidade? Eu posso lhe dar e poderemos correr pelos pastos verdes (e devorar os pastores), e ter piquenique no parque central (observando uma futura vitima pedestre). Por toda eternidade, felizes (pelo sangue dos mortais).
- Não, eu não desejo sua imortalidade, mas não é por que eu não o ame. Amo muito, tanto que amarei na próxima vida. Mas terei que recusar, sou humana, e humana continuarei. Me procure na outra vida... Quando está acabar.
- Assim farei!!!

Um Imortal solitário? Quem em sã consciência iria caminhar pela imortalidade se ainda sente solidão? ; Procurar em outra vida? Me poupe, as pessoas acham que um Devorador é tão desocupado? Nós temos objetivos, temos trabalhos, temos nossa missão, assim como todos da criação, e você quer que eu ti procure? ; Tá... Tudo bem, é uma lembrança antiga, já aconteceu algo assim comigo, admito. Quanto a parte do solitário, eu estava apaixonado, não tenho culpa. E eu até ponderei se iria mesmo atrás dela, mas deixei de lado. Eu ofereci a imortalidade, para uma mortal sentimentalmente instável. Você já pensou o que uma de vocês instável faria se estivesse com raiva de alguém e carregasse o poder de devorar essa pessoa? Pelo Criador, isso seria assustador. Mas agora sou outra pessoa, já passou... Espero... Um dos seus dons, mortais, é o fascínio, a vida que pousa em cada um de vocês. E isso nos encanta tanto quanto o seu sangue corrente, da boca ao estômago.

Um dos maiores erros de vocês foi acreditar que o ser humano não possui um predador natural. Acontece que não somos tão estúpidos a ponto de prendermos nossas presas em cativeiros, sempre apreciamos a caçada. O cheiro do sangue no ar. Mas obviamente do jeito que as coisas estavam indo, a tendência era nós também ficarmos cômodos, mas sabíamos de suas tendências a revoltas. Afinal, somos bons observadores, um dos dons que desenvolvemos. E resolvemos ajuda-los a criar uma sociedade, um lugar supostamente tranquilo, isolado dos animais perigosos e seguro. Com limites reconhecidos a olho nu. Regras do que você pode fazer e para até onde vocês podem ir. Claro, não se pode evitar intrigas entres os habitantes da sociedade, batalhas, lutas que levam à morte, etc. De qualquer forma, isso não lhe lembra bastante um cercado? As vacas também estão supostamente seguras dos outros predadores... E existem as leis e vigilância, graciosamente crescentes, que os impede de fugir. Criamos um ambiente perfeito para os nossos, um Devorador nunca sentirá tanta fome a ponto de gritar, se estiver disposto a se alimentar ao menos de tempos em tempos. Se um dos meus surge entre os mortais, quando ele percebe o que realmente é, precisará apenas olhar para os dois lados, sempre estará cercado de alimento, e irá se desenvolver até nos encontrar, até tomar seu lugar como um Devorador, até sua dor se transformar em alegria, e sua felicidade ser a própria existência.

Não se sintam mal, sério, não quero me esbanjar, ou mostrar o quão superiores nós somos, ou o quanto vocês são manipulados por vocês mesmos e pelos meus mesmos. Mas, o motivo desse escrito é para você, meu querido e adorado iniciante... Você não está sozinho, nunca esteve. Sei que é um pensamento recorrente, sei que talvez nem tenha despertado para a sua natureza, mas saiba... O momento chegará, e nós estaremos lá para dar as graças para o Devorador que você é. E se chegou até aqui, talvez você seja um dos nossos, ou só um mortal curioso, e entretido. Isso não importa muito. Mas, mantenha silencio, amigo, pois o Devorador não existe...

Autor: Luan Almeida

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