No dia
seguinte, os dois agentes do Sultão cruzaram a ponte para Snagov. O lugar era
uma pequena
fortaleza, com muralhas sólidas e compactas. O portão era de
madeira resistente, ricamente entalhado com várias figuras humanas em relevo.
Dentro dos
muros havia três edifícios: uma velha capela, um prédio baixo talhado em pedra
nua e bastante reforçado – morada dos monges, pensou o guerreiro – e a
ciclópica igreja de três torres construída, por ordem de Drácula, pelos
trabalhadores que jaziam, acorrentados, no fundo do lago. Kalil carregava a
espada na cintura e uma série de instrumentos, entre eles pá, picareta, compasso,
todos num fardo sobre o ombro. O alquimista trazia apenas uma ampulheta, uma
pequena caixa cheia de frascos coloridos e o cilindro de couro que Kalil havia
visto na noite anterior.
O pátio de
Snagov era um lugar bastante agradável, mas eles não ficariam ali por muito
tempo.
– Vamos. – disse Ghaji – Acho que é melhor começarmos pela grande
igreja.
– Iremos checar as cúpulas?
– Bem que eu gostaria, mas duvido que seja
possível.
A previsão de
Ghaji logo se confirmou. Eles entraram na igreja, passaram pela nave vazia,
cruzaram o altar – ao pé do qual havia uma grande laje, pintada com cenas de
batalha – e encontraram a porta que dava para o sopé das torres.
A escuridão do
outro lado da passagem era absoluta. Mesmo pela manhã, nenhuma luz chegava
àquele recesso. O cheiro era uma mistura de cinzas, excremento velho, umidade e
urina de morcego. Kalil não deu três passos sem sentir o contato viscoso com
teias de aranha contra o rosto, mãos e pernas. Ele chamou pelo sábio, mas a
única resposta foi o eco distante de sua voz, refletida pelas alturas.
De repente,
surgiu a luz. Ghaji misturara as substâncias de alguns de seus frascos, e o
resultado era um intenso brilho branco, que ardia sem produzir calor, a partir
de um pequeno anteparo de bronze, que o sábio carregava como se fosse um
castiçal.
– Perdoe pela demora, mas precisei voltar à
nave para fazer a poção.
– Sem problemas.
– Olhe para cima. Como vê, jamais tocaremos
as cúpulas.

– É carvão. Eles provavelmente usaram
andaimes de madeira para erguer isso, e depois queimaram tudo aqui mesmo.
– Então, caso as cúpulas sejam feitas de
ouro...
– Estão fora de alcance.
– Podemos trazer mais homens e erguer novos
andaimes. – sugeriu o guerreiro.
– É verdade, podemos. – Ghaji parecia
não prestar muita atenção no que Kalil dizia. – Mas, para não perdermos o dia, podemos também verificar os outros
prédios.
– Você realmente não acredita que o ouro
esteja nas cúpulas, não é?
– Não.
– E por quê?
– É óbvio demais. Quando há questões
realmente importantes em jogo, aquilo que parece ser raramente é. Lembre-se
disso.
Eles saíram da
igreja em silêncio e se dirigiram ao templo mais antigo. Era uma pequena
capela, com apenas uma torre. Nessa havia escada, mas tudo que encontraram ali
foi um campanário com um sino de bronze. O resto da pequena construção era
rocha nua.
O terceiro
prédio estava cheio de móveis: mesas, cadeiras, catres. Pelo chão empoeirado
havia até mesmo moedas de cobre e prata, abandonadas, talvez, na ânsia da fuga.
A cozinha possuía um forno de pedra, grande o suficiente para assar um boi
inteiro, e uma chaminé de tamanho proporcional. Exceto pelas moedas no chão,
porém, não havia qualquer sinal de tesouro. No entanto, Ghaji sondava o chão da
cozinha com especial atenção, percutindo-o com um pequeno martelo de aço, até
que, num ponto à direita do grande forno, o piso soou oco.
– Me ajude aqui. – disse a Kalil,
enquanto afastava a poeira com as mãos –
Vamos.
O piso era de
pedra maciça, exceto naquele ponto. Ali havia apenas uma lâmina de rocha,
recobrindo um alçapão de madeira. Ghaji misturou mais um pouco de sua poção
luminosa e derramou luz sobre o fosso.
– Há uma escada aqui. Quer descer?
Kalil balançou
positivamente a cabeça. O alquimista lhe entregou a fonte de luz e o guerreiro
desceu o lance de degraus, rumo ao piso inferior. Mais uma vez, as teias de
aranha e o odor de decadência vieram embaraçar-se nele. O cheiro, no entanto,
era muito pior, lembrava até um campo de batalha, dias após o embate, mas ainda
antes da chegada dos coveiros.
Uma vez ao pé
da escada, o soldado viu o motivo: aquela havia sido uma câmara de tortura e
execução. Uma câmara marcada pelo excesso. Ao caminhar, Kalil apoiava os
calcanhares sobre dedos, tíbias e costelas – que estalavam como gravetos secos
–, seus pés chutavam crânios, que rolavam, esmagando ossos mais frágeis. Era
como se o carrasco estivesse tão assoberbado que simplesmente deixava os corpos
ali, sem tempo para remover a última vítima antes da chegada da próxima.
Havia corpos
atravessados por espetos e apoiados horizontalmente sobre montes de cinzas
mortas. Havia corpos pendurados no teto por ganchos e correntes presas às
órbitas, aos cotovelos, aos joelhos. E, embora a carne da maioria já tivesse
sido devorada pelos vermes, havia aqueles – e não eram poucos – marcados por
torturas capazes de desfigurar os próprios ossos.
O guerreiro
franziu o cenho, tentando forçar a vista para além do massacre. No entanto, a
poção luminosa começava a emitir uma fumaça escura, que irritava os olhos.
Havia celas nas paredes, ele pôde perceber, e o aposento onde se encontrava era
circular, pequeno. O teto era incrivelmente alto e parecia sustentado por
colunas e arcos em forma de ogiva, estruturas onde se projetavam, alongadas e
fugidias, as sombras das vítimas de Drácula.
A constatação
da altura o surpreendeu um pouco. Ele não se lembrava de ter descido tanto
assim pela escada. Aquele lugar provavelmente estaria abaixo do nível do lago.
– Kalil...
Era a voz de
Ghaji, chamando-o pela abertura, que agora parecia tão distante e diminuta,
sobre sua cabeça.
– Ei, Kalil...
O guerreiro
bocejou. A fumaça negra começava a deixá-lo com sono. Era difícil manter os
olhos abertos. Sem obter resposta a seus apelos, Ghaji começou a fechar a
abertura no chão da cozinha.
O guerreiro
tentou protestar, mas sua boca estava pastosa. Não havia mais brilho na poção
que o sábio lhe dera. O anteparo de bronze agora produzia apenas fumaça, cada
vez mais espessa, que o impedia até mesmo de respirar.
A tampa de
madeira já estava no lugar. Dentro em breve, o alquimista colocaria ali a laje
de pedra. Então a escuridão veio, e era impossível dizer o que se apagou
primeiro: a tênue réstia de luz do dia que ainda entrava pela cozinha ou o olho
da mente de Kalil.
Continua...
Pessoal, só vou continuar se vocês comentarem...
(a não ser que não estejam gostando)
Ainda posta?
ResponderExcluirOlá wewe,
ExcluirTodas as partes já foram postadas.
Para ver o restante é só pesquisar no google:
Medo Sensitivo: Tempestade em Snagov – O Tesouro do Conde Drácula (Parte 03), por exemplo.
:D