segunda-feira, 10 de março de 2014

Hannibal Lecter é de Monterrey

Por Diego Enrique Osorno (famoso escritor de crimes)

Hannibal Lecter, foi inspirado em um médico mexicano, cujo autor Thomas Harris conheceu enquanto visitava a cadeia para entrevistar outro prisioneiro, Dykes Askew Simmons. Através do meu editor, recebi uma mensagem de Harris, que queria que eu descobrisse a identidade de alguém que havia sido encarcerado na prisão do estado de Nuevo Leon durante os anos 50 e 60.

Por alguns momentos, eu pensei que iria sustentar um intercâmbio epistolar com Harris, como Hannibal fez com alguns de seus pacientes. Quando eu li a nota, entretanto, ficou claro que eu era apenas uma espécie de detetive contratado. Sua nota dizia:

  • Eu preciso de informações sobre um médico, conhecido na imprensa como “O Lobo de Nuevo Leon”, que foi prisioneiro na prisão do estado de Nuevo Leon em meados dos anos de 1950 e 1960. Eu não sei seu nome. O médico foi condenado por matar caronistas em Nuevo Leon, desmembrá-los e jogar os pedaços, aos poucos, para fora do seu carro à noite. O médico salvou a vida de outro prisioneiro, Dykes Askew Simmons, quando Simmons levou um tiro de um guarda enquanto tentava escapar.

  • O médico também tratou de pessoas pobres enquanto era prisioneiro, e tinha um escritório médico na prisão.

  • Simmons foi um texano condenado em Nueno Leon, em março de 1961, por assassinar três jovens pessoas da família Perez Villagomez, em outubro de 1959. Ele foi condenado à morte, sentença posteriormente comutada para 30 anos. Ele permaneceu na prisão do estado de Leon State de 1961 até sua fuga, em 1969. O caso Simmons, e provavelmente o caso do médico, foi coberto pelos jornais El Norte e Nuevo Leon e El Sol de Nuevo Leon. Dois dos repórteres do El Norte que escreveram sobre Simmons foram Ricardo Bartres e Esteban Ardines.

  • Qualquer ajuda será muito bem vinda.

Primeiramente, meu trabalho parecia ser muito simples. Com tantos detalhes, eu não pensei que seria difícil descobrir o nome do assassino que interessava tanto Harris. Eu comecei minha busca com um telefonema para o escritor Eduardo Antonio Parra, um dos mestres da literatura de crimes do nordeste mexicano, cujo trabalho muito admiro. Eu dei a ele todos os detalhes, mas, infelizmente, ele não conhecia ninguém que se encaixasse na descrição. Então, eu procurei por Hugo Valdés, autor de The Crime of Aramberri Street, um romance baseado em um incidente ocorrido no bairro de Antiguo, na cidade de Monterrey, na virada do século passado.

Novamente, sem sorte.

Logo eu recebi outra mensagem de Harris:

  • Estou muito feliz por contar com sua ajuda para identificar o médico que tratou de Dykes Askew Simmons. Obrigado por seu tempo. A identidade do médico é o meu principal interesse, e qualquer detalhe sobre ele. Eu não preciso de informações sobre o caso Simmons, exceto pelo seu contato com o médico.

  • Eu assisti com interesse a sua discussão no youtube sobre os problemas atuais no México e desejo-lhe bem.

Eu, então, decidi um curso diferente de ação. Eu procurei dois ex-agentes do escritório do promotor, um ex-comandante e um ex-promotor. Eu perguntei a eles se eles lembravam de algum prisioneiro que preenchia a descrição de Harris, mas eles não conheciam. A pesquisa me levou a fazer um rápido índice dos principais crimes de celebridades dos anos 60 e 70 em Monterrey.

Foi quando Harris escreveu novamente, com mais algumas pistas:

  • O diretor do presídio na época era Miguel Guardiana Barra. Um dos inspetores de polícia tinha Sarquiz no nome. Eu espero que a informação seja útil.

  • Só para esclarecer. Tudo que preciso é do nome do médico, há alguns fatos sobre seus crimes. Ele esteve na prisão no final dos anos 50 e 60, na mesma época de Dykes Askew Simmons. Ele foi condenado por vários assassinatos nos quais as vítimas foram desmembradas. Ele tratou pacientes enquanto estava preso. Ele salvou a vida de Simmons quando ele levou um tiro. Ele era membro de uma proeminente família no México.

  • Quando eu souber seu nome poderei continuar com minha publicação. Obrigado por sua ajuda. Felicidades.

Quando eu estava prestes a ir para a Capela de Alfonsina, na Universidade Autônoma de Nuevo Leon, para cavar a coleção de periódicos e verificar os jornais do final dos anos 50 e início dos anos 60, minha namorada me ligou para dizer um nome: Doutor Ballí. Ela, uma ávida leitora de todas as formas de contos criminais, tinha investigado com amigos e família e acabou encontrando o cara de Harris. Todo o meu trabalho duro foi superado por algumas conversas informais da minha namorada.

Uma vez sabendo o nome, decidi me aprofundar um pouco mais. Eu encontrei uma história sobre Ballí escrita em 2008 e com uma curiosidade: Ele foi o último prisioneiro condenado à morte no México. Sorte do doutor. Sua sentença foi comutada e, depois de uma longa estada, ele deixou a prisão no ano 2000. O título da história é Eu não quero reviver meus fantasmas e é de autoria de Juan Carlos Rodriguez, um antigo amigo e colega do jornal Milenio.

Eu liguei para ele para perguntar sobre sua experiência com o médico.

- “Você se lembra de uma entrevista que você fez com um médico sentenciado à morte?” Eu perguntei.

“Alfredo Ballí Treviño?”

- “Sim. Você sabe se ele ainda está vivo?” Perguntei.

“Não sei. Eu acho que sim. Eu me lembro, mais ou menos, onde ele vivia e trabalhava (como médico), embora tecnicamente ele não poderia estar trabalhando por ser um ex-presidiário”.

- “Tem mais detalhes?”

“Não muito. Na verdade, essa entrevista surgiu porque um advogado nos disse onde poderíamos encontrá-lo, e nós o encontramos”.

- “Seu consultório era em Colonia Talleres?”

“Sim. Foi muito austero. Eu não me lembro o número exato da rua”.

- “O que aconteceu com ele? Ele ainda está vivo?”

“Eu acho que sim”.

Usando as informações fornecidas por Juan Carlos Rodriguez e informações recolhidas na coleção de periódicos, eu preparei um dossiê volumoso para Harris, que eu resumi da seguinte forma:

  • O nome do médico que tratou Dykes era Alfredo Ballí Treviño.
  • Ele foi sentenciado à morte por “crimes de homicídio qualificado, com sepultamento clandestino e usurpação de profissão”.
  • Seu caso está sob o número penal 263/59, no escritório do promotor no estado de Nuevo Leon.
  • O caso foi aberto em 9 de outubro de 1959.
  • A sentença do caso foi proferida em maio de 1961.
  • Na justiça do México, o caso é interessante porque envolveu uma pessoa que foi legalmente sentenciada à morte. A pena de morte não é praticada desde então (embora nós tenhamos um governo que pratica de uma forma extrajudicial).
  • Mais interessante, a sentença foi comutada.
  • Todos os sinais sugerem que o Dr. Alfredo Ballí Treviño morreu em 2010. Até esse ano, ele praticou a medicina em um consultório na esquecida colônia de Monterrey.
  • O endereço é: Calle Artículo 123, Colonia Talleres, Monterrey, Nuevo León, México CP 64480 Norte.

Harris respondeu com agradecimentos. Agora eu sei que ele precisava da informação para concluir o prólogo para a edição de aniversário de 25 anos de O Silêncio dos Inocentes. No texto, publicado na Times, Harris narra que, aos 23 anos, ele viajou até Monterrey para entrevistar Dykes Askew Simmons. E lá ele conheceu uma figura que o inspirou a criar Hannibal Lecter. Em seu texto, ele se refere ao homem como Dr. Salazar. Dr. Salazar é o Dr. Ballí, e o Dr. Ballí é o alter ego do Dr. Hannibal Lecter que, sob o domínio de Harris, possui uma forma singular e sinistra de falar, que nunca esquecerei.

“Você já viu sangue na luz do luar? Parece bastante negro”.

Tradução e postagem original: O Aprendiz Verde

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