segunda-feira, 8 de julho de 2013

Kyjin


31 de Maio de 2012 –  Haruko, The DaughterOfSpring  Tóquio – Japão

O nome dele era Kyjin. Em uma tradução mais aproximada, O Louco. Não tinha casa, não tinha família, não tinha nome. Para a maioria dos habitantes daquele específico bairro de Namie ele nem existia. Eu mesma passei por ele algumas vezes. Em todas elas, ele erguia os olhos para mim, mas só um pouquinho. E dizia alguma coisa, mas ninguém nunca conseguia decifrar o que saía de seus lábios. Confesso que o evitei outras vezes: Porque tive medo de passar por ele sozinha á noite, quando eu voltava tarde da faculdade, e ainda era nova no bairro.

“O velho Kyjin pode ser doente, mas nunca fez mal a ninguém”, me contou uma das minhas colegas de vizinhança. “As pessoas aqui não costumam ter medo dele.” Não que eu desse tanta atenção a isso. Só me lembro desses pequenos fatos agora, depois de que tudo aconteceu. Ninguém ao menos ouviu o que ele disse naquele dia fatídico, e nem ele deve ter achado isso estranho. Se é que tinha consciência de alguma coisa, ele provavelmente estava acostumado a ser desprezado.

“A tempestade vem, hoje ela vem”, ele tinha proclamado nas ruas da cidade, tão alto quanto seus velhos pulmões permitiam. “Ela vem pelas mãos dos homens, pela ciência do Homem que desenvolve tanto a ponto de irritar a Natureza. Ninguém se importa com a Grande Mãe. Ninguém dá bola quando ela grita por socorro. Ela é frágil como uma gatinha, mas guarda rancor. Escutem homens! Escutem vocês, seres humanos que constroem seus impérios tão perto daquilo que Ela, e somente Ela pode oferecer. Hoje, a vingança vem, contra todos vocês. Construam seus castelos na areia, e eles serão derrubados, seu ar será contaminado e vocês morrerão na imundícia do que suas próprias mãos construíram. E Ela não vai ajudar vocês naquele dia, amigos meus. Irmãos meus, companheiros dessa numerosa espécie humana, egoísta e indigna do que lhes é oferecido todos os dias. Vocês não merecem a água que bebem, o solo que pisam e o ar que respiram. Tudo isso vai ser privado de vocês.”

Acho que não preciso dizer que esse dia foi 11 de Março de 2011, e que uma onda gigante — Gigante não descreve tão bem aquele fenômeno, atingiu a costa da praia de Fukushima, tão perto do lugar onde estão instaladas as usinas nucleares. A radiação que escapou dos reatores deixaram para trás cidades fantasmas, entre elas, Namie.

Kyjin, O Louco, previu o imprevisível. Ele, a quem ninguém se dignava trocar um olhar, sabia o que estava para acontecer. De alguma forma, ele sabia, e tentou avisar a todos. Mas quem acreditaria? Não foi igual o que aconteceu nos tempos de Noé? Entrem no grande barco, povo. Entrem e se arrependam de seus pecados. E o que é que ele ouviu em troca? Risadas. Escárnio. E todas aquelas pessoas morreram.

No mesmo dia, exatamente três horas depois do acidente — Antes mesmo de Namie ser desocupada, Kyjin teve um ataque histérico e emudeceu. Nos dias que se seguiram, ele não levantava o olhar para ninguém, nem ao menos conversava com os seus cachorros como fazia antes. Penso que deve ter ficado, ele mesmo, embasbacado com a expansão e o tamanho da destruição que previu. Talvez se sentisse culpado.
Kyjin, O Louco, desapareceu e minhas colegas disse que à um espírito rondando o mesmo local, um espírito que tenta expressar algo, mas fica de cabeça baixa e simplesmente desaparece dentro de uma parte de Namie que ainda está destruída, eu acho que é o dele...

Fonte: http://www.morrademedo.com/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua alma está mesmo segura dentro de você?

SENSITIVOS