terça-feira, 1 de outubro de 2013

Autismo - Ilhados em sua própria mente


Autistas aparentam ser perfeitamente "normais" ao nascer. Só que os olhos logo dizem tudo. Eles não fixam o olhar em ninguém, nem na mãe, nem no pai. Na escola, não brincam com ninguém e, se brincar, não conseguem entender os joguinhos. Não têm amigos, pois não se interessam por ninguém. Vive fechado em seu mundo particular. Aparentam insensíveis, que vivem no "mundo da lua". Pois tudo que fazem é ficar num canto, empilhando objetos, repetindo frases, sozinho.

Autismo é um mistério da mente que, apesar de uma prevalência maior que a da síndrome de Down, é ainda pouco compreendido. Para começar, não é um transtorno, mas um grande espectro de diferentes transtornos de causas desconhecidas, que se convergem em 3 traços fundamentais em comum. Primeiro, o autista não vê as pessoas como indivíduos, mas como objetos. E, sem empatia, vive em um mundo só seu. Segundo, tem grave dificuldade de comunicação e, portanto, é incapaz de demonstrar o que quer ou sente. E, terceiro, é preso à rotina. Ele repete comportamentos obsessivos por muito tempo, seja falar a mesma frase várias vezes sem contexto, seja organizar objetos a esmo.

Agora, como esses aspectos interferem na vida da pessoa, em que grau e associado a quais atitudes varia muito. Há os casos mais graves, quando há um retardo mental sério e a criança não aprende a falar praticamente nada. Nem sequer os pais ela consegue reconhecer. São as imagens que se veem na televisão de crianças girando em torno de si mesmas durante horas, completamente isoladas em seu mundo. Já em outros casos, a criança fala, pode até ficar repetindo uma frase que ouviu do vizinho ou viu na TV, mas não consegue se comunicar. Entende enunciados simples, mas não interpreta nada além, muito menos figuras de linguagem, como metáforas.

O termo autismo surgiria em 1912 - então, considerado apenas uma "alienação" em pacientes com esquizofrenia. Só em 1943 o austríaco Leo Kanner falou de autismo como um transtorno propriamente dito. Na época, achava-se que a causa era o ambiente em que a criança era criada. A culpa era dos pais. Hoje se acredita que a síndrome é causada por uma constelação de fatores diferentes, que não incluem influências psicológicas. Mas, finalmente, a ciência começa a encontrar padrões de variação genética comum entre autistas. Em um estudo publicado em 2010 na revista científica Nature, foi identificada em autistas uma prevalência 20% maior de uma anomalia rara em que se duplicam ou apagam certos genes - especialmente os relacionados ao desenvolvimento da criança.

Essas pequenas pistas estão muito distantes de uma eventual cura. Mas isso não quer dizer que nada possa ser feito. Quando o diagnóstico é precoce, a criança pode ser tratada com ajuda da terapia familiar e desenvolver certas aptidões, como socializar-se um pouco mais e melhorar a linguagem. Terapia comportamental, que reinforça comportamentos positivos com prêmios, pode ensiná-lo a mostrar o que quer. E remédios também atenuam alguns sintomas. Embora não haja medicamentos específicos para o autismo, eles atenuam sintomas como agressividade e depressão.

Síndrome do gênio isolado

Ele era um gênio. Aos 5 anos de idade, já havia composto uma importante peça musical. Mas tinha um comportamento difícil. Não se relacionava com os outros; na verdade os ignorava. Cresceu sem amigos, seu casamento afundou rapidinho e o que sobrou de sua vida foi o que tinha de indiscutivelmente único: a genialidade musical. Essa é a história de Mozart, mas poderia ilustrar a vida de outros portadores de um tipo moderado de autismo, o transtorno (ou síndrome) de Asperger.

Em The Genesis of Artistic Creativity ("A Gênese da Criatividade Artística", sem tradução brasileira), o psiquiatra Michael Fitzgerald analisou a vida de 21 gênios das artes e concluiu: parte dos problemas que tiveram era decorrente dessa condição - assim como a sua genialidade. Ou seja, Mozart, Andy Warhol, Franz Kafka e George Orwell eram gênios autistas.

Portadores do transtorno de Asperger têm a mesma dificuldade para socializar, criar relações afetivas, comunicar-se, além da propensão a comportamentos repetitivos e solitários. Mas há uma diferença brutal em relação a outros autistas. Seu QI é acima da média. Às vezes, muito acima. Tanto que diferenciar um superdotado de um portador de Asperger na infância é quase impossível.

A razão para sua vantagem está em seu próprio problema. Como o mundo externo não importa, quem tem transtorno de Asperger consegue se focar mais em um único interesse: música, ciência, literatura. Como não consegue se comunicar verbalmente, volta-se para o estudo. O mesmo comportamento obsessivo de alinhar objetos e buscar semelhanças em coisas aleatórias os torna cientistas natos.

Daí os casos como o do economista Vernon Smith, que, ao ganhar o prêmio Nobel, atribuíu o prêmio ao autismo. Afinal, podia "desligar-se do mundo" quando quisesse e se concentrar só no estudo. Foi assim que Asperger virou pop.

Experimente como funciona a mente de um autista


Enquanto sua irmã gêmea se desenvolvia normalmente, o progresso da canadense Carly Fleischmann era lento. Logo foi descoberta a razão: aos dois anos de idade, ela foi diagnosticada com autismo severo. Hoje, Carly é uma adolescente que não consegue falar – mas encontrou outro meio de se comunicar. Aos 11 anos, ela foi até o computador, agitada, e fez algo que deixou toda a sua família perplexa: digitou as palavras DOR e AJUDA e saiu correndo para vomitar no banheiro.

Supostamente, Carly nunca tinha aprendido a escrever. Mas aquilo mostrou que acontecia muito mais em sua mente do que qualquer um poderia imaginar. E foi assim que começou uma nova etapa em sua vida: ela foi incentivada a se comunicar mais desta forma e a criar contas em redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Também ajudou o pai a escrever um livro sobre a sua condição e deu as informações para a criação de um site que simula a sua experiência diária com toda a descarga sensorial que recebe em situações cotidianas, como ir a um café. “O autismo me trancou em um corpo que eu não posso controlar”, diz ela no site.

Veja como é a percepção do mundo, para um autista, clicando na imagem:


Depois que sua história foi para a mídia, Carly começou a receber muitos e-mails de pessoas perguntando sobre o autismo e criou um canal para respondê-las. “As pessoas têm muitas de suas informações vindas dos chamados especialistas, mas eu acho que esses especialistas não conseguem dar uma explicação a algumas questões”, escreveu.

Veja as respostas que ela deu em seu site e entenda melhor o comportamento dos autistas:

Pergunta: Meu filho de seis anos ​​fica triste e chora com frequência, e eu não consigo entender o porquê. Você tem alguma sugestão de como eu posso descobrir o que está errado?

Carly: Pode ser muitas coisas. Será que ele está tomando algum medicamento? Eu tive muitas mudanças extremas de humor, como chorar e sentir raiva sem motivo, por causa da medicação. Também poderia ser algo que aconteceu mais cedo ou dias atrás e que ele está processando apenas agora.

Alguma vez você gritou aparentemente sem motivo? Por exemplo, você parecia feliz e relaxada, mas de repente começou a gritar? Minha filha faz isso às vezes e eu estou tentando descobrir o porquê.

Eu amo esta pergunta. Ela está fazendo uma filtragem dos sons e quebrando os ruídos e conversas que tem ouvido ao longo do dia. [O cérebro dos autistas funciona de maneira diferente e se sobrecarrega com estímulos externos, como sons, luzes, imagens e cheiros. Gritar, tapar os ouvidos, fazer ruídos ou movimentos repetitivos, segundo Carly, são uma forma de bloquear esses estímulos e se concentrar em apenas um]. Além dos gritos, você pode nos ver chorando ou rindo, tendo convulsões e até manifestando raiva. É a nossa reação ao, finalmente, entender as coisas que foram ditas e feitas no último minuto, dia ou até mês passado. Sua filha está bem.

Será que você poderia me dizer por que meu filho de quatro anos de idade (que tem autismo) grita no carro cada vez que paramos em um semáforo. Ele está bem e feliz enquanto o carro se move, mas, uma vez que paramos, ele grita e faz uma birra incontrolável.

Eu amo longas viagens de carro, elas são uma ótima forma de estímulo sem você precisar fazer nada. O movimento do carro e o cenário visual passando por ele permite que você bloqueie qualquer outra entrada sensorial e se concentre em apenas uma. Meu conselho é colocar uma cadeira de massagem no banco do carro. Assim, quando ele parar, seu filho ainda estará sentindo o movimento. Você pode também colocar um DVD mostrando um cenário em movimento.

De onde você tira tanta informação sobre a cultura pop?

Eu escuto tudo que está acontecendo ao meu redor. Se houver uma TV e eu estou em outro quarto, ainda posso ouvi-la. Se pessoas estão falando, eu gosto de ouvir o que estão dizendo, mesmo se não estão falando comigo. Não é porque eu não pareço estar prestando atenção que esse seja o caso.

Em seus sonhos você é autista?

Sim e não. Em alguns dos meus sonhos eu posso falar e fazer coisas que as crianças da minha idade fazem. Mas em outros eu ainda tenho dificuldade em fazer as coisas que posso fazer quando estou acordada. Eu sonho com um monte de coisas, como meninos e alimentos. Eu nem sempre me lembro dos meus sonhos, mas gosto deles.

Você pode descrever como se sente por dentro? Você acha que é diferente de crianças que não têm autismo?

O problema é que eu não sei o que as outras crianças sem autismo estão sentindo. Eu tenho lutas comigo todos os dias, desde que acordo até a hora de ir dormir. Não posso nem ir ao banheiro sem dizer a mim mesma para não pegar o sabonete e cheirá-lo ou sem lutar comigo mesma para não esvaziar todos os frascos de xampu.

Existem coisas que você considera mais desafiadoras, como abotoar sua roupa ou cortar a comida com uma faca? Por que você acha que não pode fazer esse tipo de coisa? O que acha que poderíamos fazer para ajudar?

Algumas coisas eu acho que posso fazer, mas é preciso muita concentração para isso. Ficar sentada e digitar é algo muito avassalador para mim – eu preciso fazer pausas e dizer a mim mesma para fazê-lo. Eu não acho que as pessoas realmente sabem como é difícil. Parece tão fácil para todo mundo, mas é como falar três línguas ao mesmo tempo.

Mais perguntas e respostas no site da Carly.

Fonte: http://super.abril.com.br/

Isolar-se dentro de si. Proposta interessante no mundo em que vivemos?
Mas eles não tem opção...

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