domingo, 15 de janeiro de 2017

A Lenda das Caçada Selvagens

A Crônica anglo-saxônica, uma das primeiras e mais importantes histórias dos anglo-saxões, descendentes das mesmas tribos germânicas como os nórdicos e compartilhavam do mesmo corpo de tradição religiosa, registra o seguinte evento como tendo acontecido em d. C 1127 :


"Que ninguém se surpreenda com o que estamos prestes a relatar, pois era comum a fofoca no campo que, depois de 6 de fevereiro, muitas pessoas viam e ouviam um grito inteiro de caçadores. Eles cavalgavam em cavalos negros enquanto seus cães eram escuros com olhos hediondos. Isso foi visto no "Deer Park" da cidade de Peterborough, e em todos os bosques que se estendem desde o mesmo lugar até Stamford. Durante toda a noite os monges os ouviam soar seus chifres. Testemunhas confiáveis que vigiavam durante a noite declararam que talvez houvesse vinte ou mesmo trinta deles nessas caçadas selvagens'"

Esta horda espectral e noturna é conhecida como "Caçada Selvagem", que foi registrada no folclore por toda a Europa antiga, medieval e até mesmo moderna, mas estava especialmente concentrada nas terras germânicas do norte da Europa. Na Escandinávia, chamava-se Oskoreia, "Cavalgada aterrorizante" ( Lecouteux, Claude. 2011) ou Odensjakt, "Caça de Odin (Simek, Rudolf. 1993)".

Em alto-alemão médio, era chamado Wuotanes Her, "Exército de Odin", e no alemão Wütende Heer, "Exército furioso/inspirado", ou Wilde Jagd, "Caçada Selvagem". (Ibid)

Atravessavam pelas florestas no inverno (The Viking Way: Religion and War in Late Iron Age Scandinavia), na parte mais fria e mais escura do ano, quando ventos e tempestades ferozes uivavam sobre a terra. Qualquer pessoa que se encontrasse à porta durante a noite durante esse tempo poderia ver aquela procissão fantasmagórica, ou ser avistada por ela, o que poderia ocasionar em ser levada e cair a quilômetros de onde inicialmente estava, ou pior (Phantom Armies of the Night: The Wild Hunt and the Ghostly Processions of the Undead.).  Outros, praticantes de várias formas de magia, se uniam voluntariamente, como uma parte intangível deles (uma "alma") e voavam com a cavalgada, enquanto seus corpos estavam em suas camas dormindo normalmente. Às vezes, os membros da Caçada entravam em cidades e casas, causando estragos e roubando comida e bebida. (Ibid)

O Líder da Caçada Selvagem

Quando os relatos da caçada selvagem mencionavam um líder, a figura que ocupava esse papel variava muito. Na Alemanha, o líder poderia ter sido "Perchta, Berhta, Berta, Holt, Holle, Hulda, Foste, Selga, Selda, Heme, Herla, Berchtold ou Berhtolt". (The Pagan Religions of the Ancient British Isles: Their Nature and Legacy)

No entanto, como atestam os vários nomes da Caçada Selvagem nas terras germânicas, uma figura estava especialmente associada a ela: Odin, o deus dos mortos, inspiração, frenesi de batalha, conhecimento, a classe dominante e as atividades criativas e intelectuais em geral.
Duas das centenas de nomes de Odin demonstram ainda sua associação com o inverno, época em que o feriado Yule (Nórdico antigo Jól) cai: Jólnir e Jauloherra, ambos significando algo como "Mestre de Yule ( The Viking Way: Religion and War in Late Iron Age Scandinavia). Os mitos o descrevem frequentemente cavalgando pelos Novos Mundos em seu cavalo de oito patas, Sleipnir, em missões de natureza xamânica, outro tema que o conecta à Caçada Selvagem.
Como disse H.R Ellis Davidson, falando das manifestações da Caçada Selvagem que continuaram bem na era cristã, "era natural que o antigo deus dos mortos que cavalgava pelo ar mantivesse um lugar desta maneira na memória do povo, e isso nos lembra o terror que seu nome já deve ter inspirado. " (Gods and Myths of Northern Europe)

Conclusão

No corpo do folclore em torno da caçada selvagem, encontramos uma série de temas que a ligam com os mortos e o submundo.  Em primeiro lugar, há o caráter fantasmagórico dos caçadores ou guerreiros. Cães e cavalos, animais que estavam intimamente associados com a morte (entre muitas outras coisas), (Dictionary of Northern Mythology) estavam quase invariavelmente presentes.
Em alguns relatos da Caçada, os cavaleiros dificilmente eram distinguidos dos espíritos terrestres, que eram confundidos com os mortos, como se os dois fossem considerados como sendo, em certo sentido, o mesmo.(Phantom Armies of the Night: The Wild Hunt and the Ghostly Processions of the Undead). Finalmente, para os povos germânicos antigos, os mundos dos vivos e dos mortos eram  especialmente permeáveis durante o Inverno, o que explica em grande parte por que esta tropa de aparições assombrava a terra durante aquela parte do ano. (A Dictionary of Northern Mythology.)
Nas palavras de Claude Lecouteux, "a Caçada Selvagem caiu no vasto complexo de adoração dos antepassados, o culto dos mortos, que são os intermediários entre os homens e os deuses. (Phantom Armies of the Night: The Wild Hunt and the Ghostly Processions of the Undead.)

Era como se os próprios elementos do Inverno - o frio ameaçador, a escuridão quase implacável, o silêncio estranho e desolado, quebrados apenas pelos ventos e ventos galopantes - manifestassem os mortos inquietos e os antigos europeus do norte, cujos modos de vida e visões de mundo predispuseram-lhes a sentir as qualidades espirituais no mundo ao seu redor, registrava os frutos às vezes aterrorizantes de tal engajamento com o mundo sobre-humano em seus relatos da Caçada Selvagem.

Traduzido de:Norse Myth



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