quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

RELATO DOS LEITORES #23

A ponte

Eu não sei se, especificamente, tem haver, mas desde criança vejo e ouço coisas "diferentes". Não gosto de pensar que seja alguma relação com religiões (não sou religiosa). Mas a minha bisavó, segundo a família, foi uma praticante de ocultismo e magia negra, não sei dizer bem. É um pouco macabro.

Minha mãe também tinha dessas coisas, de enxergar o que ninguém está vendo, e talvez eu tenha herdado isso dela. De qualquer forma, aconteceu quando eu era pequena, uns oito anos, na ponte de meu bairro.

A ponte cortava duas bandas de terra, dando acesso a uma igrejinha protestante. Na verdade, era mais uma pinguela do que outra coisa. A minha escola particular ficava justo após a pontezinha, mas eu tinha medo de altura e meu pai me levava por um caminho alternativo. Bem... até no dia 09/08/2006.

Uma mulher, depois de um tempo,  disse que uma outra engravidava frequentemente, e abortava ela mesma, algumas vezes com o feto já grande em seu ventre. Ela enterrou o primeiro feto de sua primeira gravidez, ali mesmo no quintal de sua casa, e assassinava seus próprios bebês após esse incidente. Ninguém achava que ela se tratava de um perigo real, até tentar matar o feto de outra pessoa, uma passante na rua de sua casa. Ela foi linchada e sumiu por uns tempos. Talvez até anos.

Mas, naquele dia, meu pai e eu estávamos atravessando a pobre ponte. Tinha um valão passando abaixo de nós e fedia. Eu acordei atrasada demais e tínhamos que pegar aquela caminho.  Meu pai disse que ficaria tudo bem se eu só andasse, sem olhar pra baixo. Mas eu olhei.

Eu vi uma sacola boiando, e um braço de boneca para fora. Mas não era uma boneca. Parecia uma mão humana, de bebê, e saber do fato dos abortos, anos mais tarde, me leva a imaginar que as coisas realmente foram sinistras.

A sacola preta foi sendo arrastada pelo curso. Então eu vi, na penumbra do barranco, uma mão atrofiada agarra-la e afundar com ela. Eu não gritei, mas fiquei tão pasma que puxei meu pai e quase caímos também.

Depois disso, nunca mais passo em pontes e pinguelas.

Relato de Suu Zombie

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