quarta-feira, 5 de março de 2014

O Trem de Carne da Meia-noite

Este é um conto de Clive Barker (Autor de Hellraiser) retirado de seu livro "LIVROS DE SANGUE". É uma estória bem extensa, mas que vale MUITO à pena ler. Foi esse conto que inspirou o filme O último trem, que por sinal não chega nem aos pés do conto. Se o filme tivesse explorado melhor o texto de Barker, teria sido um ótimo filme.

Boa leitura...


Leon Kaufman não era mais um forasteiro naquela cidade. O Palácio das Delícias, como a havia chamado nos dias de sua inocência. Mas isso era quando morava em Atlanta, e Nova York era ainda uma espécie de terra prometida, onde qualquer coisa e tudo eram possíveis. Agora Kaufman já morava há três meses e meio na sua cidade de sonho, e o Palácio das Delícias não parecia tão delicioso assim.
Teria realmente passado apenas uma estação do ano desde que descera na Estação Rodoviária Central e olhara para a Rua 42, na direção do cruzamento com a Broadway? Tão pouco tempo para perder tantas ilusões acalentadas? Agora, só em pensar na sua ingenuidade, sentia-se embaraçado. Constrangido,
lembrava de ter dito em voz alta: “Nova York, eu te amo”. Amor? Nunca!
Tinha sido, se tanto, um entusiasmo passageiro. E agora, depois de três meses de vida com o objeto de sua adoração, passando dias e noites dentro dela, a cidade havia perdido toda a aura de perfeição. Nova York era apenas uma cidade. Ele a vira acordar de manhã, como uma vagabunda, tirar homens assassinados do meio dos dentes, e suicidas de seu cabelo emaranhado. Ele a havia visto tarde da noite, suas ruas sombrias desavergonhadamente cortejando a depravação. Ele a havia observado à tarde, indolente e feia, indiferente as atrocidades cometidas a cada hora nas suas ruelas abafadas. Não era um Palácio de Delícias. Engendrava morte, não o prazer.
Todas as pessoas que conhecia haviam conhecido a violência; era um fato da vida. Era quase chique conhecer alguém que tivera morte violenta. Era prova de estar vivendo naquela cidade. Mas Kaufman tinha amado Nova York de longe durante quase vinte anos. Esse caso de amor fora planejado durante a maior parte de sua vida adulta. Portanto, não era fácil livrar-se da paixão, como se nunca a tivesse sentido. Em certos momentos, muito cedo, antes de começarem as sirenes da polícia, ou no fim do dia, Manhattan era
ainda um milagre. Por esses momentos, e em lembrança de seus sonhos, Kaufman concedia-lhe ainda o benefício da dúvida, mesmo quando o comportamento da cidade nada tinha de refinado.
Ela não facilitava esse perdão. Nos seus poucos meses em Nova York, Kaufman já tinha visto suas ruas inundadas de sangue. Na verdade, não eram tanto as ruas, mas os túneis abaixo delas. “Carnificina no Metrô” era a frase do mês. Na semana anterior, uns três assassinatos haviam sido perpetrados. Os corpos foram descobertos num dos vagões da linha Avenida das Américas, retalhados e parcialmente eviscerados, como se um funcionário eficiente do matadouro tivesse sido interrompido no seu trabalho. A matança
tinha sido tão profissional que a polícia estava interrogando todos os indivíduos fichados nos seus arquivos que, de um modo ou outro, estivessem ligados ao negócio de carnes. Os tendais localizados à beira-mar estavam sob vigilância, os ahatedourns foram revistados à procura de pistas. As autoridades prometiam uma prisão iminente, mas nenhuma fora feita ainda.
Aquele trio recente de cadáveres não era o primeiro a ser encontrado nesse estado; no dia da chegada de Kaufman à cidade, o Times havia publicado uma reportagem que ainda era tema de conversa de todas as mórbidas secretárias comerciais. Noticiara-se que um visitante alemão, perdido no metrô tarde da noite, havia encontrado um corpo no trem. A vítima era uma mulher de trinta anos, atraente e de corpo bem-feito, residente no Brooklin. Estava completamente nua. Haviam-lhe levado toda a roupa, todas as jóias. Até os brincos. Mais estranho do que o fato de lhe desnudarem o corpo era o modo cuidadoso e sistemático pelo qual as roupas tinham sido dobradas e colocadas numa sacola de plástico, no banco, ao lado do corpo.
Não se tratava de um assassino irracional. Era uma mente bastante organizada, um lunático com forte senso de ordem. Além disso e mais estranho ainda do que o desnudamento cuidadoso era o ultraje que então fora perpetrado. Os repórteres afirmavam, embora a polícia não confirmasse isso, que o corpo fora meticulosamente depilado. Todo o cabelo, todos os pêlos foram removidos, da cabeça, do sexo, das axilas, raspados totalmente. Até as sobrancelhas e as pestanas haviam sido arrancadas. Finalmente, aquela peça de carne, completamente nua, foi dependurada, pelos pés numa das alças presas ao teto do carro e um balde de plástico negro, forrado com uma sacola também de plástico negro, foi colocado sob o corpo, para aparar o sangue que pingava dos ferimentos.
Naquele estado, nu, sem pêlos, dependurado e praticamente sem sangue, o corpo de Loretta Dyer foi encontrado. Era revoltante, meticuloso e profundamente perturbador. Não havia sinal de estupro nem de tortura. A mulher fora rápida e eficientemente despachada, como se fosse um pedaço de carne. E o açougueiro estava solto ainda. As autoridades municipais, com sua alta sabedoria, determinaram que a imprensa não devia ter acesso ao caso. Propalava-se que o homem que havia encontrado o corpo estava sob custódia protetora em Nova Jersey, longe da curiosidade dos jornalistas. Mas esse despistamento não teve sucesso. Algum policial ganancioso passou detalhes importantes para um repórter do Times, e todo mundo em Nova York ficou logo sabendo da terrível história. Era o tópico de conversação em todas as
lanchonetes e em todos os bares e, é claro, no próprio metrô.
Mas Loretta Dyer foi apenas a primeira.
Agora, mais três corpos haviam sido encontrados nas mesmas circunstâncias, porém dessa vez o trabalho fora evidentemente interrompido. Nem todos os corpos estavam com pêlos e cabelos raspados, e as jugulares não tinham sido cortadas para a sangria. Havia outra diferença, mais significativa: não foi um turista que os encontrou, mas um repórter do New York Times. Kaufman leu a reportagem na primeira página do jornal. Não tinha interesse mórbido pela história, ao contrário do homem ao seu lado, no balcão da lanchonete. Sentiu apenas uma leve repugnância, que o fez empurrar o prato com ovos cozidos para longe dele. Era simplesmente outra prova da decadência da cidade. Não sentia prazer com aquela doença.
Contudo, era um ser humano e não podia ignorar os detalhes sangrentos descritos na reportagem. O artigo não usava linguagem sensacionalista, mas a clareza simples do estilo tornava mais impressionante a descrição. Kaufman não pôde deixar de refletir também sobre o homem que perpetrava aquelas atrocidades. Haveria um só psicopata à solta, ou vários, inspirados a copiar o crime original? Talvez fosse apenas o começo do horror. Talvez outros crimes iguais viessem a ser cometidos até que o assassino, entusiasmado ou exausto, se descuidasse e fosse apanhado. Até então, a cidade, a cidade adorada de Kaufman, ia viver num estado que mediava entre a histeria e o êxtase.
Um homem barbado derrubou com o cotovelo a xícara de café de Kaufman.
— Merda! — disse ele.
Kaufman virou-se na banqueta para evitar o café que pingava do balcão.
— Merda - disse o homem outra vez.
— Está tudo bem — disse Kaufman.
Olhou para o homem com um leve ar de desprezo. O desajeitado filho da mãe estava tentando absorver o café com um guardanapo que, aos poucos, se transformava numa papa úmida. Kaufman ficou imaginando se aquele idiota de cara corada e barba malfeita seria capaz de matar alguém. Haveria naquele rosto de comilão algum sinal, alguma pista, talvez o formato da cabeça ou a expressão dos olhos pequenos, que denunciasse sua verdadeira natureza?
O homem se dirigiu a ele.
— Quer outro?
Kaufman balançou a cabeça.
— Café. Regular. Preto — disse o cretino para a moça do outro lado do balcão. 
Ela ergueu os olhos da grelha com gordura frita que estava limpando.
Oi?
Café. É surda.
O homem sorriu para Kaufman.
Surda. — disse ele.
Kaufman notou que lhe faltavam três dentes na arcada dentária.
— Esta ruim, não é? — disse o homem.
Referia-se a quê? Ao café? A falta dos dentes?
— Três pessoas desse jeito. Trinchadas.
Kaufman fez um gesto afirmativo.
— Faz a gente pensar — disse o homem.
— Certamente.
— Quero dizer, estão escondendo os fatos, não é? Eles sabem quem fez isso.
A conversa era ridícula, pensou Kaufman. Tirou os óculos e guardou no bolso; o rosto barbado não estava mais nítido. Uma melhora pelo menos.
— Filhos da puta — disse ele. — Filhos da puta todos eles. Aposto qualquer grana que estão escondendo de nós os fatos.
— Que fatos?
— Eles têm as provas, só estão deixando a gente no escuro. Existe alguma coisa nisso tudo que não é humana.
Kaufman compreendeu. O idiota estava aventando uma teoria de conspiração. Já ouvira a mesma coisa muitas vezes. Assim nascem as lendas.
— Escute, eles vivem mexendo com esse negócio de clones e acabaram perdendo o controle. Podem estar criando monstros sem que a gente saiba. Há alguma coisa aí que eles não estão contando. Escondendo os fatos, como eu disse. Aposto qualquer coisa.
Kaufman achou interessante a certeza absoluta do homem. Monstros à solta à procura de presas. Seis cabeças, uma dúzia de olhos... Por que não? Ele sabia por que não. Porque isso seria uma desculpa para a sua cidade; isso a tiraria do anzol. E Kaufman acreditava no seu íntimo que os monstros nos túneis de Nova York eram perfeitamente humanos.
O homem de barba atirou o dinheiro no balcão e levantou-se, deslizando o traseiro gordo para fora da banqueta de plástico manchado.
— Provavelmente a culpa é de algum tira de merda —disse o homem, como tiro de despedida. — Tentou fazer uma merda de herói e fez uma merda de monstro. — Deu um sorriso grotesco. — Aposto qualquer coisa — repetiu, saindo da lanchonete.
Kaufman soltou lentamente o ar pelo nariz, sentindo diminuir a tensão no seu corpo. Detestava aquele tipo de conversa; sentia-se inarticulado e sem ação. Pensando bem, detestava também aquele tipo de homem, um animal vomitando opiniões, de que Nova York estava cheia.


Eram quase seis horas da tarde quando Mahogany acordou. A chuva da manhã tinha se transformado, naquele começo de noite, numa leve garoa. O ar estava tão limpo quanto era possível em Manhattan. Espreguiçou-se na cama, jogou para longe o cobertor sujo e levantou-se para o trabalho. No banheiro a chuva pingava na caixa do ar condicionado, enchendo o apartamento com o som cadenciado e monótono. Mahogany ligou a televisão para abafar o ruído, sem interesse pela imagem na tela. Foi até a janela. A rua, seis andares abaixo, estava apinhada de gente e de veículos.
Depois de um dia de trabalho intenso, Nova York voltava para casa, para se divertir, para fazer amor. As pessoas saíam em bandos dos escritórios e entravam nos seus automóveis. Algumas estariam irritadas depois de um dia de trabalho em cubículos pouco arejados; outras, conformadas como cordeiros, caminhariam para casa seguindo as avenidas, levadas pela corrente incessante de muitos corpos. Outras ainda estariam se dirigindo para o metrô, cegas para os grafitti nas paredes, surdas para a própria voz e o ribombar frio dos túneis. Mahogany gostava de pensar nisso. Afinal, não fazia parte do rebanho comum. Podia ficar ao lado da janela olhando as milhares de cabeças lá embaixo, certo de ser um homem escolhido. É claro, tinha prazos para cumprir, como o povo nas ruas. Mas seu trabalho não era, como o deles, uma tarefa sem sentido; era mais como um dever sagrado. 
Ele precisava viver, comer, dormir e evacuar como eles. Mas o que o impulsionava não era a necessidade financeira e sim as exigências da história. Ele se integrava numa grande tradição, que remontava a um tempo mais antigo do que a descoberta da América. Era um caçador noturno, como Jack, o Estripador, como Gilles de Rais, uma encarnação viva da morte, uma fúria com rosto humano. Era o fantasma que assombrava o sono, que despertava o terror. As pessoas lá embaixo podiam não conhecer seu rosto, nem se dar ao cuidado de olhar para ele duas vezes. Mas seus olhos as apanhavam, avaliavam-nas, escolhendo somente as melhores daquela procissão, selecionando as saudáveis e jovens para o sacrifício de sua faca santificada.
Às vezes Mahogany tinha vontade de desvendar ao mundo sua identidade, mas as responsabilidades pesavam demais sobre ele. Não podia esperar a fama. Sua vida era secreta, e só por orgulho poderia desejar reconhecimento. Afinal, pensou, por acaso a carne aplaude o açougueiro quando pulsa sobre seus joelhos? De um modo geral, estava satisfeito. Fazer parte da antiga tradição era suficiente, teria de ser sempre suficiente.
Entretanto, ultimamente algumas descobertas tinham sido feitas. Não por culpa sua, é claro. Ninguém podia acusá-lo. Mas eram tempos difíceis. A vida não era tão fácil quanto há dez anos. Estava mais velho, é claro, o que tornava o trabalho mais cansativo. E cada vez mais as obrigações sobrecarregavam seus ombros. Era um homem escolhido, um privilégio difícil de ser mantido. Uma vez ou outra pensava se não seria prudente treinar um homem mais jovem para o seu trabalho. Precisaria consultar os Patriarcas, mas, mais cedo ou mais tarde, teriam de encontrar-lhe um substituto, e seria um desperdício criminoso da sua experiência não procurar um aprendiz. Tanta felicidade para transmitir. Os truques da sua profissão extraordinária. O melhor modo de se aproximar furtivamente, de cortar, de despir, de sangrar. A melhor carne para aquele fim. O modo mais simples de se desfazer dos restos. Tantos detalhes, tanta habilidade acumulada...
Mahogany entrou no banheiro e abriu o chuveiro. Entrou sob o jato d’água e olhou para o próprio corpo. A pequena barriga, os cabelos brancos no peito flácido, as cicatrizes e espinhas espalhadas pela pele clara. Estava ficando velho. Porém, naquela noite, como em todas as outras noites, tinha um trabalho para fazer...


Kaufman voltou apressadamente para o saguão, com seu sanduíche, abaixando a gola e passando a mão no cabelo molhado pela chuva. O relógio acima do elevador marcava sete e dezesseis. Trabalharia até as dez em ponto, nem um minuto mais. O elevador o levou ao décimo segundo andar onde ficavam os escritórios de Pappas. Andou lenta e desanimadamente pelo labirinto de mesas vazias e máquinas encapadas, até seu pequeno território, que ainda estava iluminado. As faxineiras conversavam no corredor, e suas vozes eram os únicos sons no prédio.
Tirou o sobretudo, sacudiu-o para tirar a água da chuva e o dependurou no cabide. Sentou-se na frente de pilhas de pedidos com os quais trabalhava há três dias, e começou a tarefa. Mais uma noite e o trabalho estaria terminado, e Kaufman achava mais fácil de se concentrar sem o incessante ruído das máquinas de escrever no escritório. Desembrulhou o sanduíche de presunto com maionese e pão preto e acomodouse para o trabalho da noite.


Eram nove horas agora. Mahogany estava vestido para seu turno da noite. O terno discreto de sempre, a
gravata marrom com o nó impecável, as abotoaduras de prata (presente da primeira mulher) nos punhos da camisa imaculadamente passada, o cabelo escasso brilhando de óleo, as unhas cortadas e polidas, o rosto perfumado com água-de-colônia. Sua mala estava pronta. As toalhas, os instrumentos, o avental de cota de malha. Verificou a própria aparência no espelho. Ainda podia ser tomado por um homem de cinqüenta anos, pensou. Enquanto examinava o rosto no espelho, lembrou-se do dever. Acima de tudo,
precisava ter cuidado. Olhos o seguiriam a cada passo, observando o desempenho dessa noite, julgando-o. Precisava sair como um homem inocente, sem despertar suspeitas.
Se eles soubessem, pensou. Aquela gente que andava, corria e saltava, passando por ele na rua, que colidia com ele sem pedir desculpas, que olhava nos seus olhos com desprezo, que sorria da sua gordura, do corpo pouco a vontade no terno mal feito. Se soubessem o que ele fazia, o que ele era, o que ele levava na mala.
Cuidado, disse para si mesmo, apagando a luz. O apartamento ficou às escuras. Foi até a porta e abriu-a, acostumado a andar no escuro. Feliz no escuro.
As nuvens de chuva tinham desaparecido. Mahogany andou pela Avenida Amsterdam, rumo à estação de metrô da Rua 154. Essa noite tomaria outra vez a composição Avenida das Américas, sua linha favorita e geralmente a mais produtiva. Desceu a escada do metrô com a ficha na mão. Passou pelos portões automáticos. O cheiro dos túneis enchia suas narinas agora. Não o cheiro dos túneis profundos, é claro. Esses tinham um cheiro especial. Mas havia um certo conforto no ar viciado e elétrico da linha menos profunda. O hálito regurgitado de milhões de passageiros circulava naquele lugar apinhado, misturando-se com o hálito de criaturas muito mais velhas; coisas com vozes macias como argila, cujos apetites eram abomináveis. Como ele adorava isso. O cheiro, a escuridão, o trovejar dos túneis.
Ficou de pé na plataforma, observando com olhar crítico os passageiros ao seu lado. Um ou dois corpos achou que seriam dignos de serem seguidos com os olhos, mas havia muita escória entre eles, poucos dignos da caçada. Os fisicamente gastos, os obesos, os doentes, os exaustos. Corpos destruídos por excessos e por indiferença. Ofendiam seu instinto de profissional, embora compreendesse a fraqueza que estragava o melhor dos homens. Andou pela estação por mais de uma hora, vagando pelas plataformas, enquanto os trens chegavam e partiam, chegavam e partiam, e o povo com eles. Havia tão poucas pessoas de boa qualidade, que ficou desanimado. Parecia que cada vez a espera se tornava mais longa até encontrar a carne digna de ser usada.
Eram agora quase dez e meia e não tinha visto nenhuma criatura realmente ideal para o abate. Não importa, pensou ele, ainda tinha tempo. Logo ia aparecer o pessoal dos teatros. Sempre havia um ou outro corpo saudável. A inteligentsia bem alimentada, segurando os canhotos das entradas e comentando sobre as diversas formas de arte.
— oh, sim, encontraria alguma coisa entre ela.
Do contrário, e em certas noites parecia impossível encontrar alguma coisa apropriada, teria de ir de carro até o centro da cidade e apanhar um casal de namorados na rua, ou encontrar um ou dois atletas, saindo do clube de ginástica. Sempre garantiam bom material, só que com esse tipo de espécimes fortes podia haver alguma resistência.
Lembrou-se dos dois negros que havia atacado há um ano mais ou menos, com uma diferença de quarenta anos entre eles; pai e filho, talvez. Tinham resistido com facas, e Mahogany passou seis semanas no hospital. Uma luta séria que havia feito Mahogany duvidar da própria habilidade. Pior, imaginou o que os seus mestres teriam feito com ele se sofresse um ferimento mortal. Seria enviado à família em Nova Jersey, para um decente enterro cristão? Ou sua carcaça seria atirada nas trevas, para o próprio uso deles?
A manchete do New York Post deixado no banco ao seu lado chamou a atenção de Mahogany: “Toda a polícia na rua para apanhar o assassino.” Não pôde evitar um sorriso. Os pensamentos sobre fracasso, fraqueza e morte desapareceram. Afinal, era ele aquele homem, era ele o assassino, e naquela noite a idéia de ser preso era risível. Afinal, sua carreira não era sancionada pelas autoridades mais altas? Nenhum policial poderia detê-lo, nenhum tribunal seria capaz de julgá-lo. As próprias forças da lei e da ordem que encenavam toda aquela perseguição serviam a seus senhores tanto quanto ele; quase desejava que um policial insignificante o que o levasse em triunfo à presença do juiz só para ver a cara deles quando viesse das trevas a informação de que Mahogany era um homem protegido, acima de qualquer lei ou estatuto.
Passava agora das dez e trinta. Os freqüentadores de teatros começavam a aparecer, mas nada ainda aproveitável entre eles. De qualquer forma esperaria passar a hora de maior movimento e seguiria uma ou duas peças melhores até o fim da linha. Esperou com paciência, como um caçador experiente.


Às onze horas, uma hora além do que havia prometido a si mesmo, Kaufman ainda não havia terminado. Mas a irritação e o tédio dificultavam o trabalho, e os números se embaralhavam na frente dos seus olhos. As onze e dez entregou os pontos e admitiu a derrota. Esfregou os olhos ardentes com as palmas das mãos até enxergar um verdadeiro calidoscópio sob as pálpebras fechadas.
— Que se fodam! — disse.
Nunca dizia palavrões na frente de outras pessoas. Mas uma vez ou outra dizer “que se fodam” era um grande consolo. Saiu do escritório com o sobretudo úmido no braço e foi para o elevador. Sentia as pernas e os braços dormentes e mal podia manter os olhos abertos. Lá fora estava mais frio do que esperava, e o ar da noite expulsou em parte sua letargia. Caminhou para o metrô da Rua 34. Tomaria um expresso até Park Rockaway e estaria em casa dentro de uma hora.
Nem Kaufman nem Mahogany sabiam, mas na esquina da Rua 96 com a Broadway a polícia acabava de prender o que julgava ser O Assassino do Metrô, depois de cercá-lo num dos trens que iam para a cidade. Era um homem pequeno, de origem européia, que empunhava um martelo e uma serra e encurralara uma jovem no segundo carro, ameaçando cortá-la pelo meio em nome de Jeová. Se era ou não capaz de cumprir a ameaça, ninguém sabia. Mas, em verdade, nem teve chance de provar. Enquanto o resto dos passageiros (incluindo dois fuzileiros navais) observava, a vítima em potencial deu-lhe um pontapé certeiro nos testículos. Ele deixou cair o martelo. Ela o apanhou e quebrou-lhe o maxilar inferior e o osso da
face antes que os fuzileiros pudessem intervir.
Quando o trem parou na Rua 96, os policiais estavam à espera para efetuar a prisão do Açougueiro do Metrô. Entraram correndo no carro, gritando como almas penadas e morrendo de medo. O Açougueiro estava deitado num canto, com o rosto em mísero estado. Eles o levaram triunfantes. A mulher, depois de ser interrogada, foi para casa com os fuzileiros. Uma confusão que lhe viria a ser muito útil, embora Mahogany dela não tivesse a menor notícia ainda. A polícia levou boa parte da noite para determinar a identidade do prisioneiro, especialmente porque ele mal podia falar, com o maxilar quebrado. Só às três e meia da manhã um certo Capitão Davis, que entrou de serviço naquela hora, reconheceu o homem como um vendedor de flores aposentado do Bronx, chamado Hank Vasarely. Aparentemente Hank fora preso muitas vezes por comportamento ameaçador e exposição indecente, tudo em nome de Jeová. As aparências enganam; Hank era tão perigoso quanto o coelhinho da Páscoa. Não era O Açougueiro do Metrô.
Mas quando os policiais chegaram a essa conclusão Mahogany já estava fazendo seu trabalho há muito tempo. 


Eram onze e quinze quando Kaufman entrou no expresso para a Avenida Mott. Havia mais dois passageiros no carro. Uma mulher negra de meia-idade, vestindo um púrpura, e um adolescente pálido e cheio de acne, que olhava fixamente para os grafitti do teto, onde havia um que dizia “Beije meu traseiro”. Kaufman estava no primeiro carro. Tinha uma viagem de trinta e cinco minutos pela frente. Fechou os olhos, embalado pelo balanço ritmado do trem. Era uma viagem tediosa, e ele estava cansado. Não viu quando as luzes se apagaram no segundo carro. Não viu o rosto de Mahogany, no vidro entre os dois carros, a procura de mais carne.
Na Rua 14 a mulher negra desceu. Ninguém embarcou. Kaufman abriu os olhos brevemente, olhou para a plataforma vazia da Rua 14 e os fechou de novo. As portas se fecharam com um zumbido... Ele pairava naquele morno lugar entre a vigília e o sono com o adejar de sonhos nascentes envolvendo-o. Uma sensação agradável. O trem andou outra vez, chacoalhando nos túneis. Talvez no fundo da mente adormecida Kaufman tenha registrado o fato de que as portas entre o primeiro e o segundo carro haviam sido abertas. Talvez tenha sentido o cheiro da rajada repentina do ar do túnel, registrando também o barulho mais acentuado das rodas do trem. Mas ignorou tudo isso. Talvez tivesse até mesmo ouvido o ruído da luta quando Mahogany dominou o jovem de olhar perdido. Mas o som era distante, e a promessa do sono, tentadora. Kaufman dormiu de novo.
Por alguma razão sonhou com a cozinha da mãe. Ela estava picando nabos e sorrindo docemente. No sonho Kaufman era muito pequeno e olhava para o rosto radiante enquanto ela trabalhava. Corta. Corta. Corta. Abriu os olhos bruscamente. Sua mãe desapareceu. O carro estava vazio. O jovem havia desaparecido. Durante quanto tempo tinha dormido? Não se lembrava de o trem ter parado na Rua 4. Levantou-se, sonolento ainda, e quase caiu com um balanço mais violento do carro. Parecia ter aumentado muito a velocidade. Talvez o maquinista tivesse pressa de chegar em casa, de ir para a cama abraçado à mulher. Estavam voando, na verdade. E era apavorante. 
Kaufman viu uma persiana baixada sobre o vidro entre os dois carros, que não tinha notado antes. Ficou um pouco preocupado. Será que havia dormido demais, e o guarda não o vira no carro? Talvez tivessem passado por Park Rockaway, e o trem corresse agora para onde quer que fosse guardado à noite.
— Que se fodam! — disse em voz alta.
Deveria ir até o maquinista para se informar? Que pergunta mais idiota! Onde estamos? Naquela hora da noite, certamente ia ouvir uma porção de desaforos como resposta. Então o trem começou a diminuir a marcha. Uma estação. Sim, uma estação. O trem saiu do túnel para a luz encardida na estação da Rua 4 Oeste. Não tinha perdido parada alguma. Mas então, para onde tinha ido o garoto? Teria ignorado o aviso, proibindo passar de um carro para o outro quando o trem estivesse em movimento, ou estava na cabine do maquinista, lá na frente?
Provavelmente entre as pernas do maquinista ainda, pensou Kaufman com um sorriso de desprezo. Não seria a primeira vez. Aquele era o Palácio das Delícias, afinal, e todos tinham direito a um pouco de amor no escuro. Kaufman deu de ombros. Por que se importar com o paradeiro do garoto? As portas se fecharam. Ninguém tinha embarcado. Saíram da estação, as luzes diminuindo de intensidade com o aumento de energia usada pelo motor para recuperar a marcha.
Kaufman sentiu outra vez vontade de dormir, mas o medo de se perder injetou-lhe adrenalina no organismo, e seus braços e pernas formigaram com energia nervosa. Seus sentidos estavam aguçados. Sobre o barulho metálico e surdo das rodas nos trilhos, ouviu o som de roupa sendo rasgada, que vinha do segundo carro. Alguém estaria tirando a camisa apressadamente? Levantou-se, segurando uma das alças de couro para se equilibrar. A janela entre os carros estava fechada pela persiana, mas Kaufman olhou para ela, franzindo a testa, como se pudesse adquirir visão raio-X de um momento para outro. O carro balançava e balançava. A toda velocidade outra vez. Outra vez o barulho de roupa rasgada. Seria algum estupro?
Levado por um leve impulso de bisbilhotice caminhou no carro balouçante para a porta, esperando encontrar uma fresta na persiana. Com os olhos fixos nelas, não notou que chapinhava em sangue. Até que...
...escorregou. Olhou para baixo. Seu estômago viu o sangue antes que o cérebro registrasse alguma coisa, e o presunto com pão de centeio subiu, prendendo-se na sua garganta. Sangue. Respirou várias vezes o ar viciado e desviou a vista — de volta para a janela. Sua mente dizia: sangue. Nada podia afastar a palavra da sua cabeça. Estava a uns dois metros da porta, agora. Precisava ver. Havia sangue nos seus sapatos, e uma trilha fina que ia até o outro carro, mas Kaufman precisava olhar. Era imperativo. Mais dois passos na direção da porta e então examinou a persiana, procurando uma fresta; um fio puxado no pano seria suficiente. Achou um orifício minúsculo. Grudou o olho nele.
Seu cérebro recusou-se a aceitar o que os olhos viam do outro lado da porta. Rejeitou o espetáculo como absurdo, como um sonho. A razão dizia que não podia ser real, mas seus servos sabiam que era. Ficou rígido de terror. Os olhos fixos não se podiam afastar da cena horrível no outro lado da cortina. Ficou ali parado na porta enquanto o trem continuava a viagem barulhenta, todo o seu sangue fugindo para as extremidades, e o cérebro atordoado por falta de oxigênio. Pontos brilhantes espoucaram na frente dos seus olhos, obliterando a atrocidade. Então ele desmaiou. Estava inconsciente quando o trem chegou â Rua Jay. Não ouviu o aviso do maquinista para que todos os passageiros que iam continuar viagem mudassem de trem. Se tivesse ouvido, sem dúvida questionaria o motivo. Nenhum trem desembarcava todos os passageiros na Rua Jay; a linha ia até a Avenida Mott, via Aqueduto do Hipódromo, passando pelo Aeroporto John F. Kennedy. Teria perguntado que tipo de trem era aquele. Exceto pelo fato de já saber.
A verdade estava dependurada no outro carro. Sorria satisfeita para si própria, protegida por um avental ensangüentado de cota de malha. Aquele era o Trem de Carne da Meia-noite. 
Não se pode calcular o tempo num desmaio total. Segundos ou horas podiam ter passado antes que Kaufman abrisse os olhos de novo e sua mente se concentrasse naquela terrível situação. Viu-se deitado sob um dos bancos, encostado numa das paredes vibrantes do carro. Até então a sorte estava com ele, pensou; de algum modo, o balanço do carro havia levado seu corpo inconsciente para o esconderijo. Pensou no horror no Carro Dois, e engoliu o vômito. Estava sozinho. Onde quer que estivesse o guarda (talvez assassinado), não tinha como chamar por socorro. E o maquinista? Estaria morto também nos controles? Estaria o trem naquele momento lançando-se para dentro de um túnel desconhecido, um túnel sem qualquer estação que o pudesse identificar, a caminho da destruição? E se não houvesse alguma colisão para matá-lo, havia o Açougueiro, ainda retalhando, separado de Kaufman apenas por uma porta. Para qualquer lado que se voltasse, o nome na porta era Morte.
O barulho era ensurdecedor, especialmente ali, deitado no chão. Os dentes de Kaufman batiam sem cessar, e seu rosto estava amortecido pela vibração; até seu crânio doía. Gradualmente sentiu que as forças voltavam aos membros exaustos. Com cuidado esticou os dedos e fechou-os, para provocar o refluxo do sangue. Com a volta da sensação, voltou também a náusea. Continuava a ver a nojenta brutalidade no outro carro. Tinha visto fotografias de vítimas de crimes antes, é claro, mas aquele não era um crime comum. Estava no mesmo trem que o Açougueiro do Metrô, o monstro que dependurava as vítimas pelos pés nas alças de couro, sem pêlos e nuas. Dentro de quanto tempo o assassino iria atravessar aquela porta e exigir também o corpo de Kaufman? Tinha certeza de que, se o Açougueiro não acabasse com ele, a terrível expectativa se encarregaria disso.
Ouviu movimentos do outro lado da porta. O instinto dirigiu sua ação. Kaufman afundou-se mais sob o banco, o corpo transformado numa bola minúscula, o rosto pálido virado para a parede. Depois cobriu
a cabeça com as mãos e fechou os olhos com força, como um garoto com medo do bicho-papão. A porta deslizou, abrindo-se. Clique. Suash. Uma lufada de ar veio dos trilhos. Um cheiro diferente de todos que Kaufman já havia sentido, e mais frio. O ar em suas narinas era algo primitivo, hostil e indescritível. Kaufman estremeceu. A porta se fechou. Clique.
O Açougueiro estava perto, Kaufman sabia. Devia estar em pé, a poucos centímetros dele. Estaria olhando para as costas de Kaufman? Inclinando-se, a faca na mão, para tirar Kaufman do esconderijo, como um caramujo arrancado da concha? Nada aconteceu. Não sentiu qualquer bafo no pescoço. Sua espinha não foi aberta de alto a baixo. Apenas o som de passos perto da cabeça de Kaufman, depois o mesmo som
afastando-se. O ar preso nos seus pulmões, que estavam a ponto de estourar, foi expelído asperamente entre os dentes.


Mahogany ficou quase desapontado ao ver que o homem adormecido tinha desembarcado na Rua 4. Esperava ter mais uma tarefa a realizar naquela noite, que o mantivesse ocupado até o fim da linha. Mas não. O homem se fora. A vítima em potencial não parecia mesmo muito saudável, pensou. Provavelmente um anêmico contador judeu. A carne não devia ser de primeira qualidade. Mahogany atravessou o carro na direção da cabine do maquinista. Passaria o resto da viagem ali. Cristo, pensou Kaufman, ele vai matar o maquinista. A porta da cabine se abriu. Então ouviu a voz do Açougueiro baixa e rouca:
— Oi
— Oi.
Eles se conheciam.
— Tudo feito?
— Sim.
Kaufman ficou chocado com o que havia de rotineiro naquela troca de palavras. Tudo feito? O que queria dizer tudo feito? Não ouviu as palavras seguintes, porque o trem passou por uma parte muito barulhenta dos trilhos. Kaufman não resistiu mais. Cuidadosamente desvirou o corpo e olhou por sobre o ombro para a porta do carro. Só podia ver as pernas do Açougueiro e a parte de baixo da porta da cabine aberta. Diabo! Queria ver outra vez o rosto do monstro.
Ouvia risadas agora.
Kaufman calculou os riscos da sua situação; a matemática do pânico. Se ficasse onde estava, mais cedo ou mais tarde o Açougueiro o veria, e ele seria transformado em picadinho. Por outro lado, se saísse do esconderijo, arriscava-se a ser visto e perseguido. O que seria pior, a imobilidade e depois a morte, encurralado num buraco, ou tentar a fuga e enfrentar o Juízo Final no meio do carro?
Kaufman surpreendeu-se com a própria coragem: escolheu sair dali. Com lentidão infinita arrastou-se de sob o banco, os olhos pregados nas costas do Açougueiro. Uma vez fora, começou a se arrastar para a porta. Cada palmo era um tormento, mas o Açougueiro parecia muito entretido com a conversa. Kaufman chegou a porta. Começou a se levantar, tentando se preparar para o que ia ver no Carro Dois. Segurou a maçaneta, e a porta se abriu mansamente. O barulho das rodas aumentou, e uma onda de ar viciado e úmido, um fedor que não existia na terra o envolveu. Será que o Açougueiro iria ouvir algum ruído, ou sentir o cheiro? Será que se voltaria...? Mas não. Kaufman passou pela pequena abertura da porta para a câmara
ensangüentada. O alívio fez com que se descuidasse. Não fechou a porta ao passar, e ela começou a se abrir com os movimentos do trem.
Mahogany enfiou a cabeça para fora da cabine e olhou para a porta.
— Que diabo é isso? — disse o maquinista.
— Não fechei bem a porta. Nada demais.
Kaufman ouviu os passos do Açougueiro na direção da porta. Agachou-se, uma bola de pânico, contra a parede entre os dois carros, percebendo de repente que seus intestinos estavam cheios. A porta foi puxada do outro lado, e os passos se afastaram. Salvo, pelo menos por mais alguns minutos. Kaufman abriu os olhos, preparando-se para a carnificina que ia ver. Não podia evitá-lo. Apossou-se de todos os seus sentidos: o cheiro das entranhas abertas, a visão dos corpos, a sensação do líquido no chão sob seus dedos, o som das alças de couro estalando ao peso dos corpos, até o ar com o gosto salgado de sangue. Estava
naquele cubículo diante da morte absoluta, correndo velozmente, cortando as trevas. Mas não sentiu náusea agora. Nenhuma sensação sobrou a não ser uma leve repugnância. Chegou a examinar os corpos com curiosidade.
A carcaça mais próxima era o que restava do jovem espinhento do Carro Um. O corpo estava de cabeça para baixo, balançando para a frente e para trás ao ritmo do trem, em uníssono com os três companheiros; uma obscena dança macabra. Os braços pendiam molemente dos ombros, onde dois cortes com dois centímetros mais ou menos de profundidade tinham sido feitos, para que os corpos ficassem mais em
ordem assim dependurados. 
Cada parte da anatomia do garoto ondulava, acompanhando o ritmo do trem. A língua pendia da boca aberta. A cabeça balançava no pescoço cortado. Até o pênis sacudia de um lado para o outro na virilha pelada. Do ferimento na cabeça e do corte da jugular o sangue pingava ainda no balde preto. Havia uma certa elegância em tudo aquilo, a marca de um trabalho bem-feito.
Ao lado do primeiro estavam os corpos de duas mulheres brancas e outro de um rapaz de pele morena. Kaufman inclinou a cabeça para olhar os rostos deles. Não devia ser porto-riquenho. Todos sem cabelo e sem pêlos. Na verdade, o ar estava repleto do cheiro pungente da tosa. Kaufman ergueu-se, encostado na parede do carro, e o corpo de uma das mulheres girou, mostrando as costas para ele. Não estava preparado para aquele horror final.
A carne das costas estava aberta do pescoço até as nádegas, e o músculo fora retirado para expor as vértebras brilhantes. O triunfo final da arte do Açougueiro. Ali estavam dependurados aqueles pedaços retalhados, tosados, sangrados de humanidade, abertos como peixes, prontos para serem devorados...
Kaufman quase sorriu ante a perfeição daquele horror. Sentiu a sugestão de insanidade fazendo cócegas na base do seu crânio, tentando-o para o vazio, prometendo uma indiferença total para com o mundo. Começou a tremer incontrolavelmente. Suas cordas vocais tentavam formar um grito. Era intolerável; porém, gritar seria ver-se transformado numa das criaturas ali dependuradas.
— Foda-se — ele disse, em voz mais alta do que pretendia; depois, desencostando-se da parede começou a andar pelo carro entre os corpos balouçantes, observando as pilhas de roupas cuidadosamente dobradas ao lado dos outros objetos, nos bancos, ao lado dos donos. Sob seus pés o chão estava pegajoso, coberto de bile quase seca. Mesmo com os olhos quase fechados, via o sangue nos baldes com extrema clareza; era grosso e embriagador, com pontos de poeira girando dentro dele.
Passou pelo jovem e viu a porta do Carro Três. Tudo o que tinha a fazer era percorrer a aterrorizante fileira de atrocidades. Obrigou-se a seguir em frente, tentando ignorar os horrores, concentrando-se na porta que o levaria de volta a sanidade. Passou pela primeira mulher. Mais alguns metros, disse para si mesmo, dez
passos no máximo; menos, se caminhasse confiantemente. Então as luzes se apagaram.
— Jesus Cristo! — disse ele.
O trem inclinou-se para um lado, e Kaufman perdeu o equilíbrio. Na escuridão completa procurou apoio e os braços frenéticos abraçaram o corpo mais próximo. Antes que pudesse evitar, sentiu as mãos ergulharem na carne macia e os dedos agarrando a borda aberta do músculo das costas da mulher morta, as pontas tocando o osso da espinha. Seu rosto estava encostado na carne sem pêlos da virilha. 
Ele gritou e estava gritando ainda quando as luzes se acenderam.
E quando as luzes voltaram, piscando, e o grito morreu na sua garganta, ouviu o ruído dos passos do Açougueiro atravessando o Carro Um em direção à porta. Largou o corpo que abraçava. Seu rosto estava sujo do sangue da perna da mulher morta. Kaufman o sentia como se fosse uma pintura de guerra dos índios. O grito havia desanuviado sua mente, e sentiu de repente uma espécie de força. Não ia haver perseguição por todo o trem, ele sabia; não ia haver covardia, não agora. Ia haver um confronto primitivo, dois seres humanos, face a face. E não haveria truque — qualquer truque — que ele não estivesse disposto a usar para derrotar o inimigo. Era uma questão de sobrevivência, pura e simples.
A maçaneta da porta girou.
Kaufman olhou em volta, procurando uma arma, os olhos firmes e calculadores. Viu a pilha de roupas ao lado do corpo do porto-riquenho. Havia uma faca entre os anéis de pedras falsas e cordões imitando ouro. Uma arma limpa e imaculada de lâmina longa, orgulho e alegria de um homem. Estendendo o braço para além do corpo jovem e musculoso, Kaufman apanhou-a. Era uma sensação agradável, segurá-la; na
verdade, extremamente excitante.
A porta estava sendo aberta, e o rosto do Açougueiro apareceu. Kaufman olhou para Mahogany através do matadouro. Não era terrivelmente assustador; apenas outro homem cinqüentão, gordo, meio calvo. Rosto pesado, olhos fundos. A boca, pequena para o rosto e lábios delicados. Na verdade, uma boca feminina.


Mahogany não podia entender de onde tinha surgido aquele intruso, mas sabia que era outro dos seus descuidos, outro sinal de incompetência crescente. Precisava despachar aquela criatura imperfeita imediatamente. Afinal, não deviam estar a mais de dois ou três quilômetros do fim da linha. Precisava retalhar o homenzinho e dependurálo pelos tornozelos antes de chegar ao seu destino.
Entrou no Carro Dois.
— Você estava dormindo — disse, reconhecendo Kaufman. — Eu o vi.
Kaufman não disse nada.
— Devia ter saído do trem. O que estava tentando fazer? Queria se esconder de
mim?
Kaufman continuou em silêncio.
Mahogany segurou o cabo do cutelo que pendia do cinto de couro muito usado. Estava sujo de sangue, bem como o avental de cota de malha, o martelo e a serra.
— Agora — disse ele — tenho de liquidar você também.
Kaufman ergueu a faca. Parecia pequena comparada as armas do Açougueiro. 
— Foda-se — ele disse.
Mahogany sorriu das pretensões de defesa do homenzinho.
— Não devia ter visto isto; não é para gente como você — disse ele, dando outro passo para Kaufman. — É um segredo.
Oh, ele se julga um tipo inspirado por Deus, certo? — pensou Kaufman. Isso explica muita coisa.
— Foda-se — repetiu.
O Açougueiro franziu a testa. Não gostava da indiferença do homenzinho por seu trabalho, por sua reputação.
— Todos nós temos de morrer um dia — ele disse. —Você devia estar satisfeito, não vai ser liquidado como a maioria deles. Posso usar você. Para alimentar os Patriarcas.
A única resposta de Kaufman foi um sorriso. Não estava mais aterrorizado com aquele monstro grosseiro e desajeitado.
O Açougueiro tirou o cutelo do cinto e o brandiu no ar.
— Um judeuzinho imundo como você — disse ele —devia agradecer por poder ser útil; ser carne é o melhor que pode desejar.
Sem nenhum aviso, o Açougueiro atacou. O cutelo dividiu o ar com velocidade, mas Kaufman recuou para longe do alcance da arma. O cutelo raspou a manga do seu paletó, cortando-a e foi se enterrar na nádega do porto-riquenho. O impacto quase decepou a perna, e o peso do corpo abriu mais o talho. A carne exposta da coxa era como carne da melhor qualidade, suculenta e apetitosa.
O Açougueiro começou a retirar o cutelo do corpo e nesse momento Kaufman atacou. A faca moveu-se velozmente para o olho de Mahogany, mas por um erro de cálculo atingiu o pescoço. Atravessou a coluna e apareceu do outro lado, com uma pequena gota de sangue. O pescoço atravessado. Com um único golpe. De um lado ao outro.
Mahogany sentiu a lâmina no pescoço como uma sensação sufocante, quase como se tivesse um osso de galinha atravessado na garganta. Emitiu um som ridículo de tosse. O sangue escorreu dos seus lábios, pintando-os como batom numa boca de mulher. O cutelo caiu no chão. Kaufman retirou a faca. Dos dois ferimentos o sangue jorrou, em arco. Mahogany caiu de joelhos, olhando para a faca que o havia matado. O
homenzinho o observava passivamente. Dizia alguma coisa, mas Mahogany estava surdo para as palavras, como se estivesse embaixo d’água. De repente Mahogany ficou cego. Sabia, com uma nostalgia dos sentidos, que jamais ia ver ou ouvir outra vez. Isto era a morte. Estava com ele, sem dúvida.
Porém a mão sentia ainda o pano da calça, e os borrifos quentes na sua pele. Á vida parecia andar na ponta dos pés, enquanto os dedos agarravam-se aos últimos sentidos... e então o corpo desmoronou, e as mãos, a sua vida e seu dever sagrado desapareceram sob o peso da carne cinzenta. O Açougueiro estava morto.


Kaufman respirou profundamente o ar viciado e segurou uma das alças de couro para se equilibrar. Lágrimas obscureciam a visão da cena que o rodeava. Passou-se algum tempo; não sabia dizer quanto se demorou perdido num sonho de vitória. Então o trem começou a diminuir a velocidade. Sentiu e ouviu os freios sendo acionados. Os corpos dependurados foram lançados para a frente quando o trem deslizou, diminuindo a marcha, as rodas guinchando nos trilhos suados e pegajosos. Kaufman foi dominado pela curiosidade.
O trem ia desviar-se agora para o abatedouro subterrâneo do Açougueiro, decorado com as carnes que ele havia colecionado em toda a sua carreira. E o maquinista risonho, tão indiferente ao massacre, o que faria quando o trem chegasse ao seu destino? O que quer que acontecesse agora era acadêmico. Kaufman podia
enfrentar qualquer coisa; olhar e ver. O alto-falante estalou. A voz do maquinista.
— Fim da linha, cara. Melhor ir para o seu lugar, hein?
Ir para o seu lugar? O que significava isso?
O trem estava quase parando agora. Lá fora tudo estava escuro, como sempre. As luzes piscaram, depois se apagaram. Dessa vez não acenderam novamente. Kaufman estava em completa escuridão.
— Partiremos dentro de meia hora — anunciou o alto-falante, exatamente como
um aviso comum de estação.
O trem parou. O som das rodas nos trilhos, o deslocamento de ar da sua passagem, aos quais Kaufman já se havia acostumado, desapareceram de repente. Só ouvia o zumbido do alto-falante. Nada via na escuridão. Então, um som sibilante. As portas estavam se abrindo. Um cheiro invadiu o carro, tão cáustico que Kaufman levou a mão ao rosto para se defender dele. Ficou em silêncio, a mão sobre a boca durante o que lhe pareceu uma vida. Não ver o mal. Não ouvir o mal. Não falar o mal.
Então, viu um lampejo luminoso fora da janela. Desenhou a silhueta do batente da porta e aumentava gradualmente. Logo a luz no carro era suficiente para que Kaufman visse o corpo encolhido do Açougueiro a seus pés e os lívidos pedaços de carne dependurados em volta dele. Ouviu um murmúrio também, vindo do escuro, fora do trem, um conjunto de vozes fracas, como vozes de insetos. No túnel, arrastando os pés na direção do trem, caminhavam seres humanos. Kaufman via seus contornos agora. Alguns carregavam
tochas que queimavam com uma luz marrom mortiça. O ruído era talvez dos pés na terra úmida, talvez suas línguas estalando, talvez as duas coisas. Kaufman não era mais o homem ingênuo de uma hora atrás. Não podia haver dúvida quanto â intenção daquelas coisas que saíam das trevas e caminhavam para o carro do trem. O Açougueiro havia abatido os homens e as mulheres para servir de alimento aos canibais, e eles estavam chegando, como que atendendo ao gongo do carro-restaurante.
Kaufman inclinou-se e apanhou o cutelo do Açougueiro. O barulho das criaturas aproximava-se cada vez mais. Ele recuou para o lado oposto das portas abertas, mas descobriu que as outras estavam abertas também, e o murmúrio vinha dos dois lados, aproximando-se dele. Encolheu-se contra um dos bancos e estava a ponto de se esconder debaixo de um deles quando uma mão, magra e frágil, quase transparente, apareceu na porta. Não podia desviar os olhos. Não que estivesse paralisado pelo terror, como quando olhou pela porta entre os carros. Simplesmente queria ver.
A criatura subiu no carro. As tochas atrás dela deixavam seu rosto na sombra, mas os contornos podiam ser vistos claramente. Não havia nada de notável. Dois braços, duas pernas, a cabeça de formato normal. O corpo era pequeno, e o esforço de subir no trem a fazia respirar asperamente. Parecia mais geriátrica do que psicótica; gerações de canibais fictícios não o haviam preparado para aquela comovente vulnerabilidade. Atrás da primeira, criaturas semelhantes começaram a surgir das trevas, subindo no trem. Na verdade, entravam por todas as portas. Kaufman estava encurralado Sopesou o cutelo nas mãos, pronto para a luta contra aqueles monstros antigos.
Uma tocha fora levada para o carro e iluminava os rostos dos líderes. Eram completamente calvos. A pele cansada dos rostos esticava-se sobre os ossos, brilhando com a tensão. Havia manchas de podridão e doença, e em alguns lugares o músculo tinha se transformado em pus negro, através do qual apareciam os
ossos da têmpora ou da face. Alguns deles estavam nus como bebês, os corpos, uma massa informe e sifilítica, quase assexuados. Os que tinham sido seios carregavam sacos ressecados pendendo dos ombros, os órgãos genitais murchos, quase inexistentes.
Mais impressionantes do que os nus eram os que usavam roupas. Kaufman percebeu logo que eram feitas de pele humana e pendiam dos ombros ou estavam amarradas na cintura. Não apenas uma, mas uma dúzia ou mais de peles amontoadas ao acaso sobre os corpos das criaturas, como patéticos troféus. Os líderes daquela grotesca fila para a refeição tinham chegado aos corpos, e as mãos delicadas tocavam a carne dependurada, passando de cima a baixo nos corpos sem pêlos, com gestos que sugeriam prazer sensual. Línguas dançavam fora das bocas, perdigotos caíam sobre a carne. Os olhos dos monstros dardejavam de um lado para o outro, com fome e excitação. Finalmente um deles viu Kaufman. Os olhos pararam por um momento, fixando-se nele. Uma expressão interrogativa surgiu no rosto, uma paródia de perplexidade.
— Você — disse a coisa. A voz era tão devastada quanto os lábios de onde saía.
Kaufman ergueu um pouco o cutelo, calculando suas chances. Havia uns trinta deles no carro e muitos mais lá fora. Mas pareciam tão fracos, e não tinham armas, a não ser pele e osso. O monstro falou outra vez, a voz bem modulada, sob controle agora, a entonação de um homem antes culto, antes encantador.
— Você veio à procura do outro, não é?
Olhou para o corpo de Mahogany. Evidentemente compreendeu a situação com rapidez.
— Ele já estava mesmo velho — disse a criatura, os olhos lacrimejantes postos mais uma vez em Kaufman, estudando cuidadosamente.
— Foda-se — disse Kaufman. A criatura tentou um sorriso irônico, mas a técnica estava quase esquecida, e o resultado foi uma careta, expondo os dentes sistematicamente limados em ponta. 
— Agora será você quem terá de fazer isto para nós — disse o monstro com seu sorriso bestial.
— Não podemos sobreviver sem comida.
A mão deu pancadinhas na nádega de carne humana. Kaufman não tinha resposta para aquela idéia. Olhou com repugnância para as unhas que deslizavam entre as nádegas, sentindo o músculo tenro.
— Isto nos repugna tanto quanto a você — disse a criatura. — Mas somos obrigados a comer esta carne, do contrário morreremos. Deus sabe que não gosto dela.
Mas a coisa estava babando.
Kaufman conseguiu falar, afinal. Sua voz saiu fraca, mais por uma confusão de sentimentos do que por medo.
— O que são vocês? — Lembrou-se do homem barbado na lanchonete. — São algum tipo de acidente?
— Somos os patriarcas da Cidade — disse a coisa. — Bem como as mães, as filhas e os filhos. Os construtores, os legisladores. Nós fizemos esta cidade.
— Nova York? — perguntou Kaufman. — O Palácio das Delicias?
— Antes de você nascer. Antes do nascimento de qualquer pessoa viva. Enquanto falava, a criatura passava as unhas sob a pele do corpo aberto, soltando a fina camada elástica do músculo apetitoso. Atrás de Kaufman, as outras criaturas estavam tirando os corpos das alças, as mãos acariciando com prazer os
seios macios e os flancos. Eles também começavam a esfolar os corpos.
— Você nos trará mais — disse o primeiro. — Mais carne para nós. O outro fornecedor estava fraco.
Kaufman olhou para o monstro, incrédulo.
— Eu? — disse ele. — Alimentar vocês? O que pensa que sou?
— Deve fazer por nós, e para os mais velhos do que nós. Para aqueles de antes de a cidade ser imaginada, quando a América era só florestas e desertos.
A mão frágil fez um gesto, apontando para fora do trem. Kaufman acompanhou com os olhos a direção apontada. Havia alguma coisa na escuridão que ele não vira antes; muito maior do que qualquer ser humano.
O bando de criaturas abriu um espaço para que ele pudesse examinar melhor o
que estava lá fora, mas seus pés não se moveram.
— Ande — disse o patriarca.
Kaufman pensou na cidade que tinha amado. Seriam aqueles realmente seus antigos fundadores, seus filósofos, seus criadores? Tinha que acreditar. talvez houvesse pessoas na superfície.— burocratas, políticos, todo tipo de autoridade — que conheciam esse terrível segredo, e cujas vidas eram dedicadas a preservação daquela coisa abominável, alimentando as criaturas, como os selvagens ofereciam ovelhas aos
deuses. Havia uma terrível familiaridade naquele ritual. Despertava uma lembrança — não na mente consciente de Kaufman, mas no outro ego mais profundo, mais antigo. Seus pés, não mais obedecendo à mente, mas à força do instinto para adorar, moveram-se. Atravessou aquele corredor de corpos e saiu do trem. 
A luz das tochas iluminava agora fracamente a escuridão lá fora. O ar parecia sólido, espesso, com o cheiro de terra muito antiga. Mas Kaufman não sentia cheiro algum. Inclinou a cabeça para a frente, o máximo
que podia fazer para não desmaiar outra vez. Lá estava; o precursor do homem. O americano original, a quem a terra pertencia antes mesmo dos Passamaquoddy ou dos Cheyenne. Seus olhos, se é que aquilo tinha olhos, estavam fixos nele.
Kaufman estremeceu, Seus dentes bateram uns contra os outros. Ouviu o ruído da anatomia daquela coisa: tiquetaqueando, estalando, soluçando. Ela fez um pequeno movimento no escuro. O som era apavorante. Como urna montanha acomodando-se. O rosto de Kaufman estava erguido para o vulto e, sem pensar no que fazia, sem saber por que, caiu de joelhos na imundície na frente do Patriarca dos Patriarcas.
Cada dia da sua vida o havia levado para aquele dia, cada movimento apressando-o para aquele instante incalculável de terror sagrado. Se houvesse luz suficiente naquele inferno para ele ver tudo, talvez seu coração, frágil coração, tivesse explodido. Porém, vendo só o que podia ver, sentiu um adejar tremulo no peito.
Era um gigante. Sem cabeça ou membros. Sem nenhum traço humano, sem um órgão que tivesse sentido, sem sentidos. Se ela parecia com alguma coisa, era com um cardume de peixes. Milhares de bocas movendo-se em uníssono, brotando, florescendo e murchando ritmadamente. Era iridescente como madrepérola, mas as vezes predominava uma cor mais profunda do que todas as que Kaufman conhecia e cujo nome sabia! Era tudo que Kaufman podia ver, seria mais do que ele desejava ver. Havia muito
mais na escuridão, bruxuleando e estalando. Mas ele não podia olhar mais. Virou-se e nesse momento urna bola de futebol foi atirada do trem e rolou, parando na frente do Patriarca.
Não menos ele pensou que era uma bola, até olhar com mais atenção e reconhecer uma cabeça humana, a cabeça do Açougueiro. A pele do corpo fora arrancada em tiras. A cabeça cintilava sangrenta diante do seu Senhor. Kaufman desviou os olhos e voltou para o trem. Cada parte do seu corpo parecia estar chorando, exceto os olhos. Estavam quentes demais com o que tinham visto, e as lágrimas ferviam e se evaporavam neles. Lá dentro, as criaturas já tinham começado a ceia. Uma delas arrancava pitéu doce e azul do olho de uma das mulheres. Outra escava com uma mão na boca. Aos pés de Kaufman jazia o corpo decapitado do Açougueiro sangrando ainda profusamente onde fora cortado o seu pescoço.
O pequeno patriarca que havia falado antes, colocou-se na frente de Kaufman.
— Vai nós servir? — perguntou ele, gentilmente, como se pedisse a uma vaca para segui-lo.
Kaufman olhava para o cutelo, o símbolo da profissão de Açougueiro. As criaturas saíam do carro agora, arrastando os corpos semi-devorados. As tochas saíam com elas, e a escuridão voltava ao interior do carro.
Mas antes que as luzes desaparecessem completamente o patriarca estendeu o braço e segurou o rosto de Kaufman, obrigando-o a olhar para a própria imagem refletida no vidro sujo do carro. Era um reflexo fraco, mas Kaufman pôde ver o quanto tinha mudado. Mais pálido do que se pode imaginar qualquer ser humano e coberto de sangue e sujeira. A mão do patriarca segurava ainda com força o rosto de Kaufman com o
indicador enfiado na sua boca até tocar-lhe a garganta. Kaufman sentiu náusea, mas não tinha forças para repelir o ataque.
— Deve servir — disse a criatura. — Em silêncio.
Tarde demais Kaufman compreendeu a intenção daqueles dedos... De repente a criatura agarrou sua língua e a torceu. Com o choque Kaufman largou o cutelo. Tentou gritar, mas não saiu nenhum som. Sua garganta estava cheia de sangue, ouvia a carne sendo rasgada, foi dominado pelas convulsões da agonia. Então a mão saiu da sua boca, aqueles dedos vermelhos e cobertos de saliva diante dos seus olhos, segurando a língua entre o polegar e o indicador. Kaufman não podia falar.
— Deve servir. — disse o patriarca, e enfiou a língua de Kaufman na própria boca, mastigando-a com evidente satisfação. Kaufman caiu de joelhos, vomitando o sanduíche. O patriarca já ia desaparecendo na escuridão; o resto dos anciãos já havia regressado também ao covil, para outra noite de espera. O alto-falante estalou.
— Para casa — disse o maquinista.
As portas se fecharam. Sibilando, e o som do motor fez vibrar o trem. As luzes piscaram ao se acenderem, apagaram-se e acenderam outra vez. O trem começou a se mover. Kaufman estava deitado no chão, as lágrimas escorrendo pelo rosto, lágrimas de dor e resignação. Ia sangrar até a morte, resolveu, ali mesmo onde estava. Não lhe importava morrer agora. Era, afinal, um mundo sórdido. O maquinista o acordou. Kaufman abriu os olhos. O rosto acima do seu era negro e amistoso. Deu um largo sorriso, Kaufman tentou dizer alguma coisa, mas sua boca estava selada com sangue seco. Agitou a cabeça, como um retardado que estivesse tentando falar. Conseguiu apenas rosnar... Não estava morto. Não tinha sangrado até a morte.
O maquinista o ajudou a se ajoelhar, falando como se ele fosse um garoto de três anos.
— Você tem um trabalho a fazer, meu velho; eles estão satisfeitos com você.
O maquinista lambeu as pontas dos dedos e passou-os nos lábios inchados de Kaufman, tentando abri-los.
Muito o que aprender. Há muito o que aprender. Conduziu Kaufman para fora do trem. Estavam numa estação que ele nunca vira antes. Toda de azulejos brancos, absolutamente imaculada; o Nirvana de um guarda de estação. Não havia grafitti desfigurando as paredes. Não havia guichês de passagens, mas também não havia portões nem passageiros. Uma linha onde passava apenas o Trem da Carne.
Uma turma de faxineiros lavava com mangueiras o sangue dos bancos e do chão do trem. Alguém tirava a roupa do corpo do Açougueiro, preparando-o para ser despachado para Nova Jersey. Em torno de Kaufman, todos trabalhavam. Um leque da luz do alvorecer entrava por uma abertura no teto da estação. Partículas de poeira dançavam nos raios de sol, girando e girando. Kaufman olhou para elas, enlevado. Não via uma coisa tão bonita desde criança. Linda poeira. Girando e girando, girando e girando.
O maquinista conseguiu finalmente separar os lábios de Kaufman. A boca estava ferida demais para se mover, mas pelo menos podia respirar com facilidade. E a dor começava a diminuir. O condutor sorriu para ele, depois voltou-se para os homens que trabalhavam na estação.
— Quero apresentar-lhes o substituto de Mahogany. Nosso novo Açougueiro — anunciou ele.
Os trabalhadores olharam para Kaufman. Havia nos rostos deles uma certa deferência que o agradou. Kaufman olhou para a luz do sol que o envolvia agora. Moveu a cabeça, indicando que queria ir para cima, para o ar livre. O maquinista fez um gesto de assentimento e o conduziu por uma escada, depois por um corredor e, afinal, para fora, para a calçada. 
O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuns rosa pálido e o ar tinha cheiro de manhã. O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuvens rosa pálido, e o ar tinha cheiro da manhã. As ruas e avenidas estavam praticamente vazias. Ao longe, um táxi ou outro passavam no cruzamento, o motor murmurando; um corredor passou no outro lado da rua. Logo aquelas calçadas desertas estariam cheias de gente. A cidade continuada sua vida, na ignorância do que havia embaixo dela sem saber ao que devia sua existência. Sem hesitação, Kaufman caiu de joelhos e beijou o asfalto imundo com os lábios sangrentos, silenciosamente jurando lealdade eterna a sua continuação.

O Palácio das Delicias recebeu a adoração sem comentários...

Clive Barker

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