domingo, 12 de janeiro de 2014

Tempestade em Snagov – O Tesouro do Conde Drácula (Parte 03)



O guerreiro deve ter feito algum movimento brusco durante o sono, pois foi o guincho de um rato assustado que o trouxe de volta à consciência.

A escuridão naquela câmara de torturas era absoluta e, com tantos restos pelo chão, parecia impossível dar mais que dois passos sem tropeçar. Com uma paciência fortalecida em inúmeras noites de sentinela e mais outras tantas batalhas, Kalil começou a vasculhas as trevas, tateando no ar e caminhando a passo incerto. Era uma experiência frustrante, a escada poderia estar a menos de um palmo de suas mãos e, para todos os efeitos, era como se ela não existisse.

Depois de algum tempo procurando a esmo, o soldado decidiu usar um padrão em sua busca, tentando acompanhar as paredes, tocando-as para obter pontos de referência, sondando o perímetro para localizar-se e, assim, traçar uma rota até a escada.

O espaço era relativamente pequeno, Kalil não demorou mais que vinte minutos para encontrar a saída. Mas, durante todo esse tempo, seu cérebro, cego e febril, travou conhecimento íntimo com a rocha áspera, o osso afiado, os sons fugidios, os tropeções, guinchos e baques surdos. E a mente, assim alimentada, produziu delírios e pesadelos que apenas a férrea vontade de viver do guerreiro seria capaz de abafar.

Quando finalmente conseguiu atingir o topo da escada, o soldado percebeu que a tampa de madeira e a laje, embora pesadas, não estavam presas ao piso. Com algum esforço, Kalil conseguiu erguê-las e afastá-las, se vendo de volta à cozinha.

O sol já quase partira. Pelas janelas, zunia um vento gelado, que carregava consigo gotículas de chuva. Ao sair do edifício, Kalil notou que a tempestade chegava rapidamente. Nuvens negras descortinavam-se e corriam pelos céus, como macabros estandartes de cavalaria a caminho da batalha. O próprio som dos trovões lembrava o tropel de milhares de cavalos armados.

Era difícil caminhar pelo pátio de Snagov. A resistência do vento crescia a cada momento e a chuva, intensa e de gotas finas como agulhas, fazia da própria respiração um ato penoso. O soldado viu um dardo brilhante nos céus e, logo em seguida, o trovão ensurdecedor fez as muralhas tremerem. Kalil supôs que um raio tivesse atingido o lago.

O soldado se dirigia à igreja nova. Parecia-lhe claro que Ghaji o traíra e que agora estaria ali, saqueando o tesouro. O que viu, ao entrar no templo, só fez confirmar suas suspeitas: o alquimista estava de costas para a porta, empunhando uma picareta e desferindo potentes golpes contra a laje de pedra pintada, aos pés do altar.

Aquela pedra devia ser bem espessa, pois o sábio estivera trabalhando ali todo o dia. Ao lado do alquimista não se via mais a caixa de poções – ele trabalhava sob a luz de tochas improvisadas –, apenas o misterioso cilindro de couro.

O guerreiro sacou da espada e aproximou-se silenciosamente.

O estalar da rocha partida veio ao mesmo tempo em que Kalil encostava a ponta da lâmina nas costas do alquimista. Ao toque do aço, Ghaji automaticamente largou a ferramenta.

– Você errou na mistura, maldito. – disse o soldado – A fumaça não me matou.
– A intenção não era matá-lo.

Kalil pressionou mais a espada. A ponta perfurou o manto do alquimista.

– Ah, não? Bem, a sua sorte é que não gosto de matar pelas costas.
– Escute. – havia desespero na voz de Ghaji – Lembra do que eu lhe disse? Sobre coisas óbvias? Lembra-se?
– Eu esqueço fácil das coisas. Bobagens esqueço mais fácil ainda.
– Não. Eu achei que poderia fazer Drácula nos dizer onde estava o tesouro... mas errei. Era ele quem nos queria aqui, era ele quem controlava tudo, desde o começo... é ele que...
– Drácula? Drácula está morto, imbecil
– Não... está enganado... guerreiro... ele... ele....

O alquimista tremia. Sem terminar a frase, retirou um punhal do manto, virou-se e, urrando de desespero, tentou golpear Kalil.

Foi um ataque inepto. Antes mesmo que a faca iniciasse sua curva em direção ao peito do soldado, a espada já havia atravessado o ventre e o tórax do erudito que, no instante seguinte, caía ao solo, agonizando.

Kalil estava estupefato. Ghaji não parecia ser o tipo de idiota que se acreditaria capaz de vencer um soldado treinado do Sultão. Mais assustador, no entanto, era o semblante do sábio – não agora, que o alquimista se esvaía em sangue, mas instantes atrás. No lampejo de visão que o guerreiro tivera quando Ghaji se voltara para atacá-lo, antes que os instintos forjados em batalha falassem mais alto e o erudito terminasse empalado em aço sírio.

Kalil havia visto um rosto branco como cera, os olhos revirados – sem íris ou pupilas – e inchados de sangue e a língua negra. Como todo soldado envolvido no Jihad, Kalil tinha, também, sua porção de sacerdote.

E ele sabia que sinais eram aqueles, sabia que Ghaji morrera possuído por um Djinn, um espírito maligno.

Continua...

Pessoal, nenhum comentário ainda.
A história deve estar péssima.....
Comentem, galera........

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