sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O que esta morto...

Escrevo isso como uma forma de me desculpar com as pessoas afetadas por meus erros. Eu espero do fundo do meu coração, que se Deus realmente exista, ele me perdoe pelos atos que cometi, embora eu ache que nem ele me perdoaria.

Minha esposa estava em estado terminal e alguns meses atrás, ela morreu. Fiquei muito triste com a perda. Ela era maravilhosa, uma mulher carinhosa, amável... e todos que tiveram o prazer de conhecê-la pensavam o mesmo. Eu não podia suportar a dor, então eu fiz uma coisa terrível. Eu não vou te dizer como eu fiz ou como aprendi, os danos que causei foram suficiente, mas eu encontrei uma maneira de... trazê-la de volta a vida. Eu não podia mais suportar ficar sozinho então cometi um erro terrível na minha solidão.

Quando eu terminei o ritual, nada aconteceu. Nada no primeiro momento, eu ja havia desistido e enquanto a carregava de volta para enterrá-la novamente escutei e senti sua respiração. Com medida compreensível de alegria, percebi um som que emanava de sua boca. Eu tinha trazido ela de volta a vida! Na época eu não conseguia entender completamente o que 'aquilo' era, mas, na minha feliz ignorância, levei para casa.

Ela não era a mesma. Não havia nehuma característica que me lembrasse ela, parecia um ser primitivo, um animal instintivo. Ela gritava e rosnava para mim sempre que eu passava por perto. Eu estava preocupado, não comigo, mas com ela. Para que ela não pudesse escapar. Que fique registrado aqui que foi para seu próprio bem que eu a tranquei no porão. Eu nunca quis mantê-la dessa forma. Nunca imaginei que minhas ações poderiam deixar tudo tão ruim.

Continuei ali pelo tanto tempo que pude, mas seus gritos se tornaram mais e mais desesperados. Eu não conseguia acreditar que aqueles gritos eram de minha esposa, ou, seja la o que era aquilo. Eu precisava fazer alguma coisa.

Então aconteceu algo, eu percebi que não era o único a ouvir os gritos. Meus vizinhos começaram a ficar curiosos, eventualmente invadindo meu quintal para bisbilhotar. Eu peguei um em flagante, e como não tinha uma explicação para dar ao que ele viu e ouviu, eu o ataquei. Não queria matá-lo, mas ele não queria sair da minha casa, como eu temia as consequências de deixá-lo ir, o tranquei no porão junto com minha esposa.

Naquela noite, não ouve gritos.

Ao amanhecer, desci para ver meu vizinho. Mas, ele não estava mais lá, primeiramente pensei que ele tivesse escapado ou se escondido em algum lugar, foi quando percebi uma quantidade enorme de sangue e... um pedaço de carne perto da minha esposa que estava dormindo.

Ela tinha se alimentado dele e agora dormia tranquilamente. Todo esse tempo, os gritos eram de fome. Fechei a porta e fui deitar-me novamente. Ela ficou quieta por mais alguns dias. Parecia que ela só precisava comer de vez em quando.

Eu não me orgulho do que fiz.

Saí à noite todos os dias, tão tarde que as ruas estavam quase vazias. Andei procurando pessoas que estavessem sozinhas, as atacava e carregava seus corpos para a minha mulher no porão. Eu costumava acordar do meu sono para ouvir seus gritos, gritos de socorro. A fome despertava a besta que estava dentro dela fazendo-a gritar cada vez mais alto. Enfim, apenas 10 minutos de trituração e quebra de ossos me garantiam mais alguns dias de sossego.

Não era eu quem realmente matava aquelas pessoas, mas sabia que eu era culpado. Foram minhas ações que provocaram a morte de tantos, e minhas ações que causaram tristeza nas famílias das vitimas. Quantos panos rasgados e sangrentos ainda tenho que queimar? Quantas pessoas foram destruídas por minhas mãos? Perdi a noção dos números, mas certamente ainda é um número elevado!

Depois de um tempo comecei a me referir a “ele” porque finalmente percebi que aquilo não era minha esposa. Dia após dia, ele ficava mais forte, sua força  estava aumentando e com o passar do tempo me via forçado a levar para casa mais comida. Pessoas maiores. Homens. Duas mulheres. Uma mulher e um homem. Eventualmente, ele estava devorando um homem adulto por dia.

Em algum canto escuro da minha mente eu sabia que isso não podia durar para sempre. Eu não podia continuar matando pessoas. Eu estava podia ser apanhado, e, embora eu merecesse, não queria isso. O medo tomou conta de mim e então decidi fugir.

Arrumava as malas quando ouvi batidas à porta. A polícia tinha encontrado um rastro de sangue que surgia nos bosques e levava até minha propriedade, estavam me perguntando se eu tinha visto ou ouvido algo suspeito, estranho. Tentei manter a cabeça fria e não parecer culpado mas o fato deles me verem apressado e com malas prontas não ajudou muito.

Então aquilo começou a gritar. Ele gritou mais alto do que eu jamais tinha ouvido gritar antes, parecia louco. Os políciais sacaram imediatamente as armas e entraram, pensando que talvez algum predador terrível estivesse em minha casa. Eles finalmente encontraram a porta do porão e abriram. Lentamente, muito lentamente, desceram as escadas. Eu não estava com a cabeça no lugar então fiz a única coisa que eu conseguia pensar.

Fechei a porta.

Tranquei e joguei a chave, corri para meu quarto e peguei minhas malas. Passando pelas portas do porão eu ouvi os gritos dos polícias que me assombram até hoje. Ouvi o som de madeira estilhaçando: aquela... coisa... tinha escapado do porão. Corri o mais rápido que minhas pernas podiam,  continuei correndo até chegar na estação e pegar um trem que me levasse para bem longe.

Aquele lugar é uma cidade fantasma agora. Manchada de sangue... nenhum corpo vivo anda por lá. Eu desejo muito retornar à minha antiga propriedade, para reunir toda a minha pesquisa, os rituais... porque eu sinto que posso fazer certo dessa vez. Eu estou atormentado pelo mal que fiz e pelas vidas que se foram por minha causa, por isso desejo retornar minhas pesquisas.

Eu  não só acho que posso reviver minha esposa, como também posso reviver a cidade inteira de uma só vez.

Eu vou tentar de novo...

Fonte: http://www.ahoradomedo.com/

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